Cajazeiras-PB, 18/10/2017

O motor da luz

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Estávamos no final de 1957. Em Cajazeiras, alto sertão paraibano, reinavam, nas noites varridas pelas aragens que sobravam do Araripe, o motor de luz e Edite. Ela, como rainha de outras artes, dona de uma pensão de mulheres. No começo da noite, ao lusco-fusco, o motor era acionado e ofegava até onze horas, espalhando pontos de luz amarela que varavam os escuros. Faltando alguns minutos para ser desligado, a luz sumia por instantes e voltava; aviso para a luz sumia por instantes e voltava; aviso para que todos se recolhessem, procurassem suas casas e os casais se despedissem. Um toque de recolher.

Durante o dia, a cidade suava. O sol, naquelas paragens, ficava mais perto do chão. O comércio funcionava devagar, as pessoas procuravam sombra. Se havia inverno, corria dinheiro, a vida seguia boa, a cidade se levantava. Nos tempos de seca, um inferno. Teve gente que viu um teju (Tupinambis teguixim), bicho resisten­te ao maior estio, pular de uma oiticica (Licania rigida) da estrada, na bagagem de um ôni­bus que passava para São Paulo, numa seca des­sas.

Nessa situação, quando alguém, um dia, anunciou que Cajazeiras iria receber energia elé­trica da usina de Coremas, que mais tarde se integraria ao sistema Chesf, anunciava o come­ço de uma era e o fim de um jugo, o fim das trevas. A luz amarela e fraca do motor da luz daria lugar ao clarão da modernidade. Chico Sales, vereador paparicado entre as meninas de Edite, afeito a prosopopeias, chegou a dizer, à luz de lamparinas, que Cajazeiras, em cinco anos, poderia ser para o Brasil o que Detroit era para os Estados Unidos. Uma rapariguinha re­cém-chegada do Crato, suspirou num canto e enrabichou de vez. Nessa noite, ele passou bem, comeu do bom e do melhor. Quanto ao vaticínio, em curto prazo, só veio a funcionar uma indústria de doce de goiaba – coisa fina, um manjar.

É bem verdade que a cidade viveu meses de sofrimento. Os buracos nas ruas, o motor da luz falhando, os cabos sendo substituídos, os postes sendo trocados, as instalações mudadas, os casais se aproveitando dos escuros – a vida um caos temporário cheio de esperança. Berí, moçoila gentil e trêfega, no meio daquela situa­ção, chegou uma noite em casa, juntou pai e mãe, serviu chá de cidreira (Citrus medica) e, diante dos dois abismados, alertou:

– Se essa situação não se resolver logo, fico buchuda!

DE LUIZ CARLOS ALBUQUERQUE NO LIVRO NA FORÇA DA LUA

SOBRE Christiano Moura

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