O gol derreteu a ideologia

A COLUNA DE FRANCISCO SALES CARTAXO ROLIM

REPRODUÇÃO DA INTERNET
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México. Julho de 1970. Copa do Mundo. O Brasil lutava pelo tri. Aqui, o governo militar torcia para tudo dar certo. O general-presidente, rádio de pilha ao ouvido, buscava no futebol popularizar sua imagem e a do regime. O gaúcho Garrastazu Médici presidia os anos de chumbo do movimento de 1964, o golpe dentro do golpe, formalizado pelo Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968. O AI 5 intensificou a repressão aos subversivos. A censura, ainda mais rigorosa, não dava brecha. Proibia a divulgação de qualquer notícia acerca da resistência política ou armada. Só informação oficial circulava. Dom Helder Câmara sequer podia ter seu nome citado. Grupos da luta armada insistiam com embates contestatórios quase suicidas. Sequestros, atentados, assaltos a bancos. Em prisões, tortura e mortes.

Torcer por esse Brasil?

Dúvida terrível. Um choque na consciência de muita gente. Como se não bastasse a propaganda oficial, havia os eternos babões a associar os jogadores brasileiros à revolução de março. E as músicas? Noventa milhões em ação/pra frente Brasil/do meu coração/todos juntos vamos/pra frente Brasil/salve a seleção!

Éramos quatro casais.

No dia do jogo Brasil x Peru estávamos em meu apartamento no Recife. Trabalhávamos na Sudene, os homens, menos um que, considerado subversivo perigoso, fora posto na rua. As mulheres eram profissionais da educação ou ainda estudante. Todos intelectuais de esquerda, digamos, sobreviventes quietos, naquele tempo barra pesada. E aí, vamos torcer pela seleção? Não havia unanimidade. Muita cerveja, agulha frita, caldinho de peixe, queijo de coalho e arrumadinho testemunharam o angustiante dilema: vibrar com a canarinha, fazendo o jogo da ditadura, ou torcer por outro país?

A tentação veio do Peru.

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O Peru foi a grande surpresa do início da Copa de 70. Jogava um futebol veloz, a procura do gol, com jogadores hábeis, comandados por Valdir Pereira, o nosso Didi. Alguém argumentava: vamos torcer pelo Peru, ora, ora, quem transferiu nossa malícia, nosso gingado para os craques peruanos? Didi, claro, o mestre da folha seca! Até isso valia para aplacar a dor na consciência patriótica. E havia mais.

Havia Juan Velasco Alvarado.

Isto mesmo, o general – de origem humilde, lá dos confins do Peru -, que derrubara, em outubro de 1968, o presidente Fernando Belaúnde Terry e tentava implantar um governo militar de feição nacionalista. Aplaudido por quase toda a esquerda latino-americana e europeia, o general Alvarado anunciara uma plataforma anti-imperialista e contra as oligarquias locais que, desde sempre, dominavam o Peru. O general começou o governo desapropriando empresas de petróleo americanas e inglesas e iniciou programa de reforma agrária, a fim de chacoalhar o latifúndio. Na época da Copa no México, a revolução peruana estava de vento em popa, em lua-de-mel, partilhada pelos milicos nacionalistas e correntes de esquerda.

Com esse pano de fundo, pregamos os olhos na televisão, para ver Brasil e Peru se enfrentarem nas quartas de final. A tensão, que era enorme, só fazia aumentar. Um silêncio cúmplice abafava nossas contradições. A alma doía a cada jogada de perigo. Eis que Rivelino chuta com a esquerda famosa, a bola ainda bate na trave…

– Gol, gooool, gooool… do Brasil!

Gritamos, pulamos, nos abraçamos… Todos. Daí pra frente, éramos só emoção, alegria, alegria na vitória de 4 a 2 sobre o Peru. Sem remorso. Sem culpa. Pelo Brasil.

ELIANE BANDEIRA

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