O circo

A COLUNA SEMANAL DE MARIANA MOREIRA

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“O espetáculo não pode parar”. Berra, a plenos pulmões, em um roto e decaído picadeiro, o mestre de cerimônia de um circo de empanada esburacada e em cuja fachada, com acanhadas e raras luzes piscantes, ainda se vislumbra os rabiscos das inscrições que lhes dão titularidade: “democracia brasileira”.

Na plateia paneleiros, assistentes vestindo patrióticas camisetas da seleção brasileira,um arremedo de classe média que se aliena nas vitrines de Miami e não vislumbra sua condição de explorados, aplaudem exaustivamente o desempenho de senhores e senhoras em suas vestes augustas e semblantes de casa grande exalando ranço e ardor de naftalina e desprezo a qualquer ruído que consegue transpor a soleira da senzala.

Tudo sob a proteção dos holofotes que garantem a projeção do espetáculo para todas as telas azuladas em todos os rincões do país.

E grande parte da platéia que não com seguiu assento nas arquibancadas, vibram silenciosos em suas alcovas ou se expressam em batidas de panelas nas sacadas de confortáveis apartamentos ou em ruídos de apitos e buzinas de carros importados que cruzam ruas alardeando a vitória da “justiça” e da “liberdade”.

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E o sonho sonhado em lutas e pelejas de tantos negros, pardos, favelados, migrantes, sertanejos, garis, prostitutas, mulheres, camponeses, sem terra, sem teto, enfim, de tantos despossuídos e invisibilisados da história que, em fugazes momentos, apostou no seu protagonismo social e político, se torna quimera a dissipar-se no turbilhão das forças e marchas que retomam o curso das coisas e explicita que democracia, justiça, liberdade, direitos são invenções humanas. Portanto, situadas e moldadas no ritmo das idas e vindas das pressões, das mobilizações e das articulações construídas e costuradas pela linha da história cerzida por mãos que revelam ou escondem interesses, intencionalidades, desejos.

E o circo dos horrores, cujo primeiro grande espetáculo, se anuncia com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a quem se atribui o crime de “pedaladas fiscais”, cuja materialidade, até o momento, não se construiu e se provou, tem sua segunda edição com a articulação para impingir ao ex-presidente Lula a autoria de crimes cometidos quando de sua passagem pela presidência da República. Crimes que, em um exaustivo trabalho de investigação, se materializam em “convicções”, e não em provas, em presunções e não em verdades.

E somos apenas, e tão somente, viajantes de um espetáculo deprimente que, nos excluindo de nossa humanidade, nos torna somente marionetes dos interesses dominantes.

E, como canta Ivan Lins, “depende de nós, se o circo esteja armado”.

ELIANE BANDEIRA

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