O Centenário Açude Grande – Exame da obra concluída


açude-grande-barragens

 

Açude “Cajazeiras”

Estado da Parahyba – Município de Cajazeiras

ORÇAMENTO……. 76:244$096

Custo: 73: 201$425 – Capacidade: 2.599.600 m³

Custo do m³: 28 réis

 

VI. – Exame da obra concluída

Tendo sido deliberada a entrega do açude construído ao Governo do Estado da Parahyba, foi determinado aos engenheiros Pedro Ciarlini e Henrique Pyles – encarregados, respectivamente, das obras dos açudes “Riacho do Sangue” e “Velame”, em construção no Estado do Ceará – que fossem até Cajazeiras examinar se o açude ali recentemente construído estava em condições de ser entregue.

Os relatórios desse exame, apresentados, separadamente, pelos dois engenheiros, são semelhantes; e, por isso, translado para aqui apenas o do engenheiro Henrique Pyles.

“Partindo do Riacho do Sangue, a 29 de maio, em companhia do engenheiro Pedro Ciarlini, dirigi-me para a cidade de Cajazeiras, distante aproximadamente 250 quilômetros, para examinar o açude do mesmo nome, e onde chegamos na tarde de 2 de junho. Na manhã seguinte, em companhia do engenheiro Coelho Sobrinho, nos dirigimos ao local da obra, que se acha logo acima da cidade, começando em seguida as investigações necessárias. Após um exame, até onde foi possível, verifiquei que a construção estava de acordo com o projeto e que apresentava, nas suas diversas partes, aproximadamente, as seguintes dimensões, ou relações:

BARRAGEM A

  • Comprimento: 229,00 m
  • Altura, inclusive barragem antiga que media, aproximadamente, 5 metros: 7,00 m
  • Largura máxima: 25,00 m
  • Coroamento: 3,00 m
  • Taludes de montante: 2:1
  • Taludes de jusante: 1,5:1
  • Cubação, cerca de 6.500 m³. (inclusive barragem antiga e respectivas fundações). Revanche: 2,00 m

BARRAGEM B

  • Comprimento: 224,00 m
  • Altura máxima (inclusive fundações): 8,00 m
  • Largura máxima: 21,50 m
  • Coroamento: 3,00 m
  • Taludes de montante: 2:1
  • Taludes de jusante (até muro antigo na parte central): 1,5:1
  • Cubação, cerca de 7.000 m³ (inclusive fundações). Revanche: 2,00 m

MURO DE SUPORTE

  • Alvenaria de pedra e cal: cubação, cerca de 11,50 m³

SANGRADOURO

  • Largura da soleira: 40,00 m
  • Soleira em pedra e piçarro com cordão de alvenaria de pedra e cal no traço 1:2: 10 m³
  • Corte em rocha, cerca de 390,00 m³
  • Corte em piçarra, cerca de 1.155,00 m³

Segundo dizem, a altura máxima da lâmina d’água no antigo sangradouro atingiu 1,20 m sobre seu comprimento de 26 metros, dando, portanto, uma vazão máxima de Q = 1,84 L H³/² = 1,84×26 (1,2) ³/² = 62,8 m³ por segundo, L = largura na soleira e H = espessura da lâmina d’água.

Aplicando-se a mesma fórmula para achar a largura que o sangradouro deveria ter (pra descarregar 62,8 m³) sangrando com uma lâmina d’água de um metro, temos: L = Q = 62,8 = 34,2 m.

Verifica-se, portanto, que o sangradouro de 40 m é mais que suficiente.

Em 3 de junho verificou-se que as águas tinham atingido a cota 4.000; e faltava um metro para o sangradouro começar a sangrar.

As duas barragens, que se acham cercadas de arame farpado e plantadas de grama, apresentam aparência agradável. Nota-se, na barragem B, pequena infiltração; porém, é de se esperar que não perigue sua estabilidade, visto a maior parte ser por debaixo do antigo vertedouro e a tendência ser de diminuir com a continuada sedimentação.

Segundo informações do engenheiro Coelho Sobrinho, acham-se desapropriados, aproximadamente 2/3 das terras da bacia hidráulica, faltando apenas três proprietários, que se achavam ausentes e cujas indenizações atingirão talvez a sete (7) contos de réis.

Quando, em agosto do ano de 1917, esteve o Dr. Pires do Rio em inspeção às obras a cargo do engenheiro Coelho Sobrinho, escreveu, às páginas 3 de seu respectivo relatório:

“A obra dá a aparência de ter sido feita com cuidado. De fato, as duas paredes reveem, quer a feita a montante do muro de pedra, quer a feita como capeamento da velha barragem de terra.

Atribuo a revença duma das barragens à infiltração na camada de piçarra em que se fundou; na segunda (a montante do muro de pedra) a revença é vista perfeitamente no trecho em que a barragem é fundada na rocha em flor do solo. Medi esta última revença (cerca de 40 litros por minuto) e calculo a da outra em 20 litros. Nessas condições, a perda por infiltração não excederá 1 litro por segundo – (ou 86.400 litros por dia). Esta perda – de cerca de 60.000 metros cúbicos em dois anos de seca – não influi num açude de mais de 2.500.000 metros cúbicos de capacidade.

Não me parece que a infiltração venha a prejudicar a estabilidade das barragens; numa, porque as águas não aparecem no pé da parede senão a uns 100 metros à jusante; e na outra, porque as terras se acham suportadas por um muro de pedras. Este muro foi consolidado por meio de três gigantes de pedra e cal; um desses contratou apenas enquanto os pedreiros trabalhavam. A cal da base dum contraforte deve ter sido dissolvida e o gigante será de nulo efeito como obra de reforço.”

EXTRAÍDO DO LIVRO "ESTRADA DAS BOIADAS" DE ROSILDA CARTAXO. FOTOGRAFIA DO ACERVO DE AGUINALDO ROLIM.

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