Cajazeiras-PB, 22/10/2017

O baú da música paraibana

bau-rockband

A ideia, como quase todas que surgem no âmbito da internet, era bem simples: divulgar a música feita por artistas que nasceram ou viveram na Paraíba, disponibilizando seu trabalho para download gratuito. Só que a coisa cresceu e hoje, 5 anos depois, o blog ‘Música da Paraíba’ (www.musicadaparaiba.blogspot.com) já virou uma das páginas culturais mais acessadas pelos internautas paraibanos, ganhando adeptos também em outros Estados e com um catálogo de discos extenso e variado, de dar inveja a muita gravadora.

Por trás da ideia está um grupo de jovens amante da música e a favor da cultura livre e do compartilhamento digital. O trio formado por Raoni Pordeus, Anselmo Oliveira e Gerson Abrantes já coleciona mais de 300 postagens com álbuns de quase 150 músicos e bandas da Paraíba, alguns deles raros, que não chegaram a sair em CD ou que estão esgotados nos estoques das lojas.

Segundo Gerson Abrantes, produtor que há dois anos se engajou no projeto junto com o amigo Anselmo Oliveira, tudo começou em 2007, quando o técnico em informática Raoni Pordeus criou o domínio do blog e começou a compartilhar o farto acervo de música de que dispunha em sua coleção particular.

“Ele (Raoni) tinha muita coisa antiga e só depois, quando Anselmo e eu conversávamos sobre a possibilidade de criar um blog com esta proposta, foi que conhecemos o site e resolvemos colaborar, colocando discos mais recentes”, lembra Gerson, que se vale de sua experiência no metiê e da articulação em listas de e-mail como a ‘PB Rock’ (groups.yahoo.com.br/group/pbrock) para convencer as bandas em atividade a cederem material para o blog.

“Algumas bandas já incluem o site no plano de estratégia de lançamento dos álbuns, ‘vazando’ o link para baixar os discos antes mesmo de começar a vendê-los como produto”, garante Gerson, que demonstra uma certa preocupação com relação aos artistas que se sentem incomodados quando encontram seus discos divulgados no blog sem prévia autorização. “Isso é bastante raro de acontecer, mas quando acontece a política do blog é bem clara: caso algum artista se sinta prejudicado com os downloads gratuitos, é só enviar um e-mail de solicitação que nós retiramos o link imediatamente”.

Para o músico Adeildo Vieira, que permitiu o download gratuito, no site, dos dois únicos álbuns de sua discografia (Diário de Bordo, de 2000, e Há Braços, de 2009), a atitude do trio é positiva: “Uma iniciativa como esta só traz benefícios para os compositores da cena independente, que vivem o afã de ter suas obras divulgadas. Prejuízo maior causam as emissoras de rádio, que não tocam nossas músicas”, opina Adeildo. “Na realidade a que estamos submetidos, o maior desejo é ver nossa obra repercutindo entre os ouvintes”.

‘JOIAS DO CATÁLOGO’

Com uma média de 5 mil acessos por mês e quase 50 mil downloads desde 2009 (época em que a equipe contratou o serviço de contagem), o ‘Música na Paraíba’ ajudou a difundir obras relevantes e pouco conhecidas, como Cantata para Algamar, ópera feita pelo compositor José Alberto Kaplan (1935-2009) e pelo escritor W.J. Solha, lançada em LP em 1978.

“Algumas coisas estavam guardadas nos móveis das nossas famílias. CDs esquecidos e até vinis deixados pra trás ao longo do tempo”, conta Gerson, que também conseguiu converter para o formato .mp3 o Réquiem para o Circo – Made in PB, LP gravado pelo ator Luiz Carlos Vasconcelos em 1976 e lançado pela gravadora Rozemblit com as faixas ‘Monólogo do Palhaço’ (parceria de Zé Ramalho e Solha) e ‘Anjo Branco’.

Outra joia do catálogo é o álbum duplo Música da Paraíba Hoje, lançado em 1982 com nomes que fizeram o ‘Musiclube da Paraíba’, como Livardo Alves, Paulo Ró, Pedro Osmar e Chico César. Alguns destes artistas, por sinal, estão representados por discos antológicos de coletivos como o Jaguaribe Carne ou por boa parte de suas discografias individuais.

A variedade de gêneros é outro fator que chama a atenção no catálogo do ‘Música da Paraíba’: pesquisá-lo é encontrar desde títulos de heavy e trash metal como de ritmos mais regionais e folclóricos, como o forró e o xaxado. Exemplo de tal abragência vem dos registros de duas bandas de Campina Grande que foram resgatados pelo blog: o CD Tortuous Way (1991), da banda de trash metal Nephastus; e o CD homônimo da tradicional Banda de Pífanos de Campina Grande.

De acordo com Gerson Abrantes, Cátia de França e Escurinho são dois dos artistas mais procurados pelos internautas, que puseram duas postagens a respeito deles na lista dos links mais acessados do blog: a sobre o clássico 20 Palavras ao Redor do Sol (1979), de Cátia, e a sobre Labacé (1995), de Escurinho.

As postagens trazem geralmente a capa do disco, informações técnicas sobre gravadora, ano de lançamento e lista de faixas, além de um pequeno texto com memorabília sobre o artista e a obra em questão. O material é produzido ou pelo trio de organizadores ou pelos próprios internautas, que escrevem para eles querendo colaborar.

“A gente orienta os colaboradores a enviar um e-mail para o endereço do blog (musicadaparaiba@gmail.com) com o link para baixar o arquivo em um site de compartilhamento confiável, como o ‘MediaFire’ (www.mediafire.com), e um texto de divulgação”, explica Gerson, que planeja imprimir melhorias no blog apelando para o sistema de financiamento coletivo ou ‘crowdfunding’ (a popular ‘vaquinha digital’, sistema através do qual o público injeta capital voluntariamente nos projetos que são cadastrados em uma plataforma e submetidos à avaliação).

“Pensamos em reestruturar o blog e fazê-lo funcionar mais ativamente com a web 2.0, buscando soluções de captação de recursos e investidores, já que todo o trabalho até agora tem sido espontâneo e colaborativo”, justifica o produtor, que afirma que até hoje não teve nenhum tipo de lucro com o projeto ou custo para a sua manutenção. “Pensamos também em trabalhar com concursos e premiações e já andamos conversando sobre uma associação com o pessoal do carrinho PB-Pop” (coletivo de Alex Madureira e Coloral que circula com um carrinho de som que só toca música da Paraíba nas ruas de João Pessoa).

JORNAL DA PARAÍBA

SOBRE Christiano Moura

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