O que move nossos sentimentos quando, de forma abrupta e sem nenhuma plausibilidade racional, somos invadidos por saudades, carências, fragilidades, susceptibilidades capazes de escancarar nossas entranhas humanas lanhadas pelo medo, pela angustia, pela solidão, pelo desamor, pela estranha sensação de finitude e de transitoriedade? O que dá substância ao silêncio que envolve nossas multidões de expectativas e de esperanças esgarçadas pela tirania de um cotidiano que no compele ao egoísmo de nossas próprias arrogâncias?

Ora, não queiram que esta singela cronista, em sua invisibilidade de ser humano, tenha respostas a todas as interrogações filosóficas e existenciais. Apenas me reservo o direito de expressa-las como tentativa de escapar ao torvelinho que, no dia a dia de nossas existências, revolve as profundas águas de nosso mais recôndito íntimo, trazendo para a superfície nossos medos e nossos fantasmas. Assombrações que, de tão ausentes, se ensaiam na penumbra de suas magrelas e disformes paisagens. Fantasmas que se alimentam de nossa insensibilidade para, no apressamento de nossas rotinas, apavorar nossa negligencia em vivenciar, com sinceridade, a gentileza.

Não somos capazes de, no ritmo lancinante e tresloucado de nossas ações e gestos, frear nossa impulsividade para chamar alguém de “amigo”. Não temos a sensibilidade para ver a alegria manifesta no ágil abanar da cauda de um abandonado vira-lata que nos olha com visão espichada querendo somente um afago que lhe restitua a crença na superioridade da raça humana, com seu telencéfalo superior e sua extrema capacidade para a destruição do belo, do simples, do ingênuo, do encanto. Não temos a gentileza de estender a mão e tocar o ombro do mendigo roto e com aspecto que, de repugnante, causa asco aos nossos olfatos civilizados de odores e cheiros que escondem o aroma de nossos suores e de nossos excrementos afogados em cloacas e fossas lacradas com a argamassa de nossas indiferenças e de nossas quimeras de seres superiores e impecáveis em suas posturas e ações. Situamo-nos no patamar de nossas presunções de espécie dominante e engessamos nossa visão para um único sentido: o do horizonte longe e tingido de glórias e promessas de vitórias que ungirão todos como senhores do mundo e donos de todo o conhecimento e de toda a razão. Um horizonte que, entretanto, teima em ser turvado pelo cogumelo medonho das explosões atômicas, pelos esqueletos amontoados em fornos crematórios da supremacia racial insana, em rostos escondidos pelos véus absurdos da intolerância e do fundamentalismo.

Não quero filosofar. Apenas dizer que podemos, enquanto sujeitos superiores, utilizar nossa capacidade de curvar a espinha e enxergar as minúcias e pluralidades de situações e de eventos que se processam sob nossos pés. E isso não é retroagir. É apenas um saudável sintoma de humanidade. Uma humanidade perdida nos labirintos de nossas presunções de racionais.

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