[MARIANA MOREIRA] Reminiscências para os dias de hoje


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Na época do meu nascimento o então Distrito de Cachoeira dos Índios, por todos chamados de Catingueira, pertencia ao município de Cajazeiras. Era uma segunda-feira, dia 03 de agosto de 1959. Meu pai, Seu Raimundo Moura, ensacava e pesava algodão na balança de braço disposta no terreiro da casa de Impueiras.

No pequeno quarto de móveis rústicos e cama com colchão de palha de bananeira minha mãe, Dona Betina, antecipava meu nascimento nos murmúrios e lamentos das dores do parto. Por volta das quatro da tarde vim ao mundo pelas mãos suaves da parteira Ana Preá. Mãe Ana como a chamava e, com respeitosa reverência, lhe pedia a bênção.

Somente três anos depois, em 20 de setembro de 1962, meu pai, seguindo a tradição e o costume da época, – de deixar nascerem vários filhos para, então, fazer o registro civil -, junta os dados de três filhos e vai ao Cartório do nascente município de Cachoeira dos Índios.

Minha infância passei em Impueiras. Meu pai, detentor de uma pequena experiência de professor, tinha uma profunda admiração pelo hábito da leitura. Entre cordéis e livros religiosos cresci vendo papai dividindo as mãos entre enxadas, foices e livros. Ainda na mais tenra infância tinha como companhia uma carta de ABC, uma tabuada e um Catecismo.

Um tempo de lições escolares e brincadeiras na bagaceira do Engenho da Coréia. Dos meses passados na casa do avô, Papai Manoel, cuidando da irmã Bernadete, enquanto mamãe se restabelecia do resguardo do nascimento da caçula, Maria do Carmo, que, enxerida, é a única que se mete a nascer em maternidade. Da tristeza incompreensível pela prematura e inesperada morte do irmão Manoel. Da solidão das estradas ermas de tempos de secas e de comadres de mamãe que arribavam em viagens de idas, sem voltas.

Estudo os primeiros anos em escolas de Impueiras e Cipó. Escolas que funcionavam nas salas principais de casas de família e, depois, no Grupo Escolar Lindalva Claudino Martins, ao lado da Capela de Nossa Senhora de Fátima, no Distrito de Fátima. Escolas de bancos improvisados de madeira, lousa desbotada. Tempos de lembranças pueris. De professoras quase irmãs, como as primas Toinha de Enedino, Benedita e Luiza de Tio Possidônio Moura, Dona Lourdinha de Sé. Escolas frequentadas por todos, arremediados e bens de vida.

É nesse momento que começo a me inquietar com situações para as quais minha concepção infantil não vislumbrava discernimento: porque tantos colegas de escola largavam os bancos escolares? Porque alguns eram considerados rudes e outros tinham méritos de sabedoria e inteligência? A escola e a educação eram consideradas atributos dos indivíduos, e não direitos da pessoa humana. Superar o analfabetismo era uma questão de você ser inteligente ou burro; esforçado ou lerdo. Minha compreensão, no entanto, não alcançava esse entendimento. Angustiava-me.

Aos dez anos me submeto ao Exame de Admissão para ingressar no Colégio Estadual de Cajazeiras. A cabeça não tinha se descolado do sítio e a perspectiva da vida urbana, longe da casa e do colo dos pais, assusta e trava. Não sou aprovada. Como represália e por falta de opção de companhia para voltar a frequentar o Grupo Escolar Lindalva Claudino, consigo uma vaga, mesmo fora de época, para cursar o quarto ano na Escola Lica Dantas, que ficava próxima a uma casa de meu avô, Papai Manoel, na Dr. Coelho, e onde meus tios e irmãos mais velhos já moravam.

Eram tempos sombrios de ditadura civil-militar. Tempos em que Chico Buarque nos embalava nos versos e nas letras cifradas de Fado Tropical.

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão de incesto.

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa,
Mas meu peito se desabotoa.

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa,

Pois que senão o coração perdoa”.

Guitarras e sanfonas,
Jasmins, coqueiros, fontes,
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo…

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um império colonial!

Uma inquietação torna-se companhia constante: o silêncio sobre eleições, democracia, voto direto. Apenas, como deleite, as memoráveis campanhas de Bosco Barreto.

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