[MARIANA MOREIRA] Lições do tempo


Quais lições o ano findo nos ensina?

A primeira delas é que este foi um dos mais sombrios e rancorosos anos da nossa recente história. Um ano em que a prática democrática necessária ao estabelecimento de relações saudáveis entre governantes e governados foi vilipendiada, estuprada, saqueada. Os acontecimentos políticos que se sucederam numa avalanche de episódios revelaram como interesses mesquinhos e fascistas turvam, deturpam e desconstroem direitos e garantias importantes para que o homem, em seu humano direito, não se converta, ou se transforme em reles coisa.

Um ano em que o Semiárido Nordestino encerra mais um ciclo de estiagens prolongadas que, segundo especialistas, pode ser considerado tão avassalador quanto a trágica seca de 1877 cuja memória ainda ressoa no imaginário da região com cenas dantescas de fome, de morte, de peste. Encerra-se o ciclo, mas as lições não foram ensinadas e aprendidas. Não se presenciou, em nenhum momento, qualquer atitude, ou sinalização, por parte do poder público, no propósito de discutir como é possível a convivência nesta região. Uma convivência que, estabelecida entre homem e natureza, precisa compreender as secas não como castigo ou evento que se combate, mas como episódios presentes na paisagem sertaneja.

Ora, a única ação mais efetiva nesse sentido foi o desfocado projeto de transposição do Rio São Francisco que, incorporando a concepção equivocada e perniciosa da velha política do “combate a seca”, se arrasta num rosário interminável de erros, desvios e apropriações indébitas por grupos políticos que teimam em manter acesa a chaminé da indústria da seca.

Um ano em que aprendemos, nas lágrimas e tropeços da repressão política e policial, o quanto verdadeira é a quimera de direitos adquiridos. Aprendemos na carne lanhada pelo chicote da arrogância que somos construção histórica cujos alicerces precisam ser reforçados cotidianamente com a argamassa de nossa luta política. Nutrido pela nossa mobilização, ocupando ruas, praças, escolas, universidades. Que os direitos assegurados em constituições não passam de letra morta se não forem atualizados com a peleja entre posições e concepções de mundo e de vida.

Assim, o ano que se finda leva em sua bagagem e em sua memória, a cena de um punhado de parlamentares alterando o texto constitucional para que os interesses dos grupos dominantes não sejam lesados e aranhados por escolas, hospitais, casas populares, luz elétrica que iluminam as trevas do colonialismo e constrói cidadania e humanos direitos.

Por fim, o ano que se finda nos ensina como a associação de judiciário, mídia e parlamento produzem situações horripilantes que agridem elementares conquistas hoje bem comuns a vários povos em diversas experiências políticas.

Assistimos uma presidenta eleita ser usurpada do cargo com falsos artifícios jurídicos. Vimos mídia e judiciário demonizando figuras políticas apenas com frágeis suposições ou vagas e insustentáveis convicções.

E assim terminamos o ano.

E, reinventando o cinema, ouso dizer: este foi o primeiro dos mais sombrios anos de nossas vidas.

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