Cajazeiras-PB, 21/10/2017

Frestas outonais

As folhas amareladas tremulam no espaço azul despido de nuvens que antecipa a estação da seca. Ventos mornos se enrodilham em buliçosos redemoinhos dando movimento as carcaças e cangaços do que restou das minguadas chuvas. No ar bailam sonhos e esperanças de tantos que teimam na crença da vida entre a aridez de cactus e pedregulhos inférteis, mas de onde brotam frágeis expressões e possibilidades de cor e dinamicidade. Uma flor de gitirana, uma coroa de frade, um pau d’arco, um sabiá melancólico, um bem ti vi serelepe vão imprimindo sons e matizes múltiplos no que, aparentemente, se apresenta estático e imobilizado pela ausência de vida.

E o sertão também vive seu outono. Impregnados pelo imaginário de uma caatinga ingrata e engessada na dicotômica ditadura das secas e dos invernos, não somos capazes de enxergar as sutis manifestações de bichos, plantas e gentes que se metamorfoseiam em novos personagens. Amadurecidas pelo fim do ciclo das chuvas, as folhas amarelam em todos os tons e despencam tangidas pelos ventos mornos que, rasteiros e traquinas, movimentam a lentidão morosa das tardes quentes. E que beleza se encerra nos múltiplos pingos de ouro, em tamanhos diversos, que se desprendem dos galhos e desenham piruetas tantas em aquarelas imaginárias em um céu de um azul que, parafraseando Caetano é “quase inexistente. Um azul que é pura memória de algum lugar”.

Nos galhos das imburanas, dos paus d’arcos e dos jenipapeiros xexéus se apossam, feito posseiros, dos ninhos de outras aves e dão sequência a espécie. O alarido dos filhotes famintos esticando bicos precoces na direção do alimento revela como, em sua plenitude e magnitude, a natureza se recompõe e se equilibra, mesmo com nossa insistente burrice de quebrar a harmonia e estrangular os elos que mantêm a cadeia articulada e com os necessários nexos para garantir a sobrevivência do planeta. Bem te vis e gaviões ousados e atrevidos em seus rasantes vôos buscam raptar o alimento nos ninhos garboso e aguerridamente defendidos por pais zelosos.

E a vida, para os que têm a sensibilidade de enxergar além da pressa urbana e das impressões fugazes da pós-modernidade, tem e traz seus encantos e encantamentos, mesmo quando se trava uma peleja entre vida e morte, entre paixão e guerra, entre flores e espinhos, entre ser e ter, entre existir e vegetar. E, na ante sala da primavera que se anuncia com sua explosão de cores e exuberância, os minguados sinais do outono vão surgindo como trilhas que nos conduzem ao tempo de amadurecimento e folhas murchas.

Essa é apenas uma singela impressão de quem ama o lugar que lhe dá origem e guarida. E aos estrangeiros e incautos peregrinos e viajantes, a recomendação de que, transitando pelas veredas do sertão, arregalem os olhos e dispam o coração de qualquer prevenção. Somente assim, se permitirão contaminar pelo alaranjado que se espraia em nosso poente quando o sol se despede da terra e, no ocidente, uma super lua se esgueira entre garranchos e fiapos de nuvens.

SOBRE MARIANA MOREIRA

MARIANA MOREIRA
Jornalista e professora universitária.

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