[FRASSALES CARTAXO] Pausa para dona Belinha


No dia 12 de setembro de 1904 nasceu Isabel Sales de Brito, no município cearense de Várzea Alegre. Lá se vão 112 anos! Veio morar na Paraíba, tangida por ventos de açoite que varreram o Cariri no começo do século XX. O Ceará vivia forte reboliço político e religioso, a começar pela “guerra” do Crato contra Juazeiro. A luta estendeu-se até Fortaleza a ponto de desalojar do palácio o governador Franco Rabelo, oficial do Exército, escolhido para enfrentar o poderoso chefe Nogueira Acioly, em nome de movimento renovador chamado de “salvacionismo”, conduzido pelo general Hermes da Fonseca. Salvar o quê? Salvar o País das oligarquias políticas, na visão dos militares, que no Nordeste eram orientados pelo general Dantas Barreto.

Pois bem, minha mãe, com 10 anos de idade foi esbarrar em São João do Rio do Peixe, sua família fugindo da intolerância de chefetes, jagunços, cangaceiros e cabras, que passaram a perseguir adversários, aproveitando-se da marcha vitoriosa da “sedição do Juazeiro”, do exército irregular comandado por Floro Bartolomeu, sob as benções do padre Cícero.

Meu avô materno virou inimigo.

Para mim, esse é um lado nebuloso na minha memória, guardada desde a infância. Minha mãe e suas três irmãs, com as quais convivi muitos anos, sempre negaram que meu avô fosse político. José Joaquim de Brito, conhecido como major Zuza da Inácia, não se envolvia em lutas partidárias. Era apenas fazendeiro e comerciante, costumavam dizer minhas tias, dedicado a empreender viagens regulares à capital de onde trazia mercadorias para negociar no Cariri. Cresci ouvindo essa versão das quatro irmãs, que narravam com detalhes as andanças mercantis do pai delas.

Mas, ao mesmo tempo, elas davam conta de que o major Zuza da Inácia exercera o cargo de delegado ou subdelegado no lugar onde residia e arrematavam: pai nunca foi político! Ora, delegado ou subdelegado desempenhava função política, típica do exercício partidário naquele tempo! E não era insignificante no plano local. Se meu avô não estava ao lado dos sediciosos do Juazeiro… então era inimigo! Por isso, perseguido, foi forçado a vender suas terras, abandonar seus fregueses e retirar-se de mala e bagagem para o Oeste da Paraíba. Para evitar uma desgraça. Não demorou muito tempo em São João do Rio do Peixe. Com quatro filhas moças, deslocou-se para Cajazeiras a fim de propiciar-lhes instrução formal no maior centro educacional da região.

Isabel parou no caminho da escola.

Foi seduzida pelos versos do viúvo Cristiano Cartaxo. Saiu da escola criada pelo padre Rolim, casou-se em12 de setembro de 1921, justo no dia em que completou 17 anos! E adotou o nome de Isabel Sales Cartaxo, dona Belinha. E haja filhos. Doze! Seis homens e seis mulheres, sem contar dois abortos espontâneos que um dia ela me revelou, entre suspiros, eu já homem feito, pai de três dos seus muitos netos.

Foi a dona Belinha que dediquei meu último livro, Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero, usando estas palavras:

Quando menino, ouvi muitas vezes minha mãe, Isabel, narrar casos protagonizados pelo padre Cícero. Entre eles sua fuga em 1914, aos dez anos de idade, junto com a família, forçada a emigrar do cariri cearense para o sertão da Paraíba. Seu pai, José Joaquim de Brito, escapou de perseguições políticas munido de salvo-conduto assinado pelo padre Cícero. Em memória de minha mãe escrevi este livro, com amor e saudade.

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