[FRASSALES CARTAXO] Ocupação de colégios e universidades


Era meu propósito fazer desta última crônica do ano um canto de esperança no futuro. Até pensei em afastar da memória tristezas pessoais e tragédias coletivas. E excluir asneiras como esta, ditas em Alagoas por Temer, ao distribuir migalhas no Nordeste:

Meu objetivo e meu sonho é que, ao final de meu mandato, vocês possam dizer que esse foi o maior presidente nordestino que passou pelo Brasil.

Que pretensão!

Por isso, fica em suspenso o traço de otimismo, disse a mim mesmo, enquanto decidia o que escrever. As imagens de terra arrasada em alguns espaços físicos da Universidade Federal de Pernambuco me deram um murro na alma. Deixei a poeira baixar. Consultei mestres daquela Universidade. É mais chocante ainda, confirmaram, levando em conta a maneira como trataram alguns professores, que sequer têm discordâncias política e ideológica com o movimento ocupa UFPE. Muitos, como eu, apoiaram as ocupações, inclusive levando água e alimentos, desabafou o chefe de Departamento de Geografia.

Vamos aos fatos.

A ocupação durou cerca de dois meses. O objetivo principal dessa tática de luta era protestar contra a PEC de controle dos gastos públicos e a MP de reforma do ensino. A ocupação abrangeu onze prédios da UFPE. Só em dois, porém, houve depredação: no Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) e no Centro de Artes e Comunicação (CAC). Ambos foram alvo de atos de destruição em salas de aula e de professores, laboratórios e outros ambientes. Pior ainda, a UFPE queixa-se de furto de equipamentos como máquinas de digitalização de imagens, computadores, notebooks e outros aparelhos eletrônicos. Mais grave, no entanto, foi a destruição parcial do Laboratório Liber de imagem, de onde sumiram 130 terabytes de imagens levadas com os equipamentos furtados!

Qual o sentido de tais desmandos?

Impossível aceitar qualquer justificativa para ação destruidora de tamanha gravidade, praticada em dois dos onze prédios ocupados, numa universidade que tem a administração superior eleita – e reeleita este ano -, pela comunidade de docentes, alunos e funcionários em pleito marcado por debates, cobertos pela mídia pernambucana. Note-se, ação de meia dúzia de irresponsáveis e inconsequentes ativistas, de dentro ou de fora da Universidade. (Suspeita-se da presença nos atos criminosos de pessoas estranhas ao corpo discente da UFPE). Esse pequeno grupo não tem a conivência de seus colegas estudantes, que não estariam dispostos a apoiá-los.

Que fazer então?

Investigar, apurar, condenar e punir os culpados. A direção da UFPE cumpriu sua obrigação, abrindo dois inquéritos, além de solicitar à Polícia Federal que cuide do caso. Aliás, a PF já começou a agir. Realizou perícia no local, recolheu registros eletrônicos, fotográficos, impressões digitais e outros meios de prova, para avaliar os estragos físicos e identificar os autores dos prejuízos materiais e agressões morais.

Assim agindo, as autoridades universitárias tentam, talvez, recuperar-se do cochilo em zelar pelo patrimônio público, lamentavelmente, danificado por meia dúzia de vândalos. E adotam procedimentos democráticos de defesa do estado de direito, aliás, desprezados pelos malfeitores. Buscam assim realçar o papel reservado à Universidade: ser um espaço para a discussão responsável de seus problemas internos e das grandes questões nacionais, o que interessa à maioria, ao contrário do gesto estúpido de desvio inconsequente no uso da tática de ocupação de escolas.

Desejo que 2017 traga bons fluidos a todos os leitores.

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