[FRASSALES CARTAXO] O marechal de costas


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Absolutamente tudo, as conchas, uma flor que se abre, a maré sulcando a areia na praia, traz de volta a Floriano a imagem de uma vagina. Ele está prestes a entrar na sala de mãos dadas ao preceptor, que prefere ser chamado de Bonaparte. Floriano vê a cortina de veludo roxo, com vincos de alto a baixo, dobrados num lábio na boca de cena, e isso também lembra uma vagina.

Assim começa O marechal de costas, exatamente assim, com esse abominável absolutamente, na abertura do romance. Deu-me a impressão de antecipar sacanagem, quem sabe, na linha de ensaios biográficos escritos acerca de fantasias e travessuras sexuais do imperador Pedro I. Cai do cavalo. A vagina, citada duas vezes nas sete primeiras linhas, é, porém, mera indicação do tempo, adolescente, do protagonista do romance de José Luiz Passos, pernambucano radicado nos Estados Unidos. A cena inicial do livro realça tão só a frustrada experiência de ator, vivida pelo rapaz Floriano Peixoto, antes mesmo de seu ingresso na Escola Militar. O tempo, sim, é categoria com a qual o autor brinca ao longo das quase 200 páginas do livro.

O marechal de costas é o terceiro romance de José Luiz.

Ele também escreve ensaios acadêmicos, como o Romance com pessoas, análise de personagens de Machado de Assis, seu foco central na vida acadêmica, exercida na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, onde ensina literatura brasileira e portuguesa.

A narrativa, em terceira pessoa, apoia-se ainda em dois personagens inominados: um professor e uma cozinheira. O narrador principal conduz a trama, usa lances selecionados da trajetória de Floriano Peixoto, guarda coerência a fatos históricos, sem recorrer a tiradas eloquentes, comuns à história oficial, mesmo quando insere o protagonista em acontecimentos marcantes, como a Guerra do Paraguai e a Revolta da Armada. De permeio, seduz o leitor com casos e personagens secundários. Exemplos? O índio uruguaio de fala arrevesada, Maximiliano Ureña, incorporado à tropa imperial como símbolo da integração no campo de batalha da tríplice aliança contra Solano López. Outra figura: o pernambucano Silvino de Macedo, um rebelde intuitivo e quixotesco que afronta a autoridade republicana e termina sendo fuzilado.

E a cozinheira?

O professor e a cozinheira foram criados para trazer a narrativa à atualidade da vida política brasileira, num arranjo ousado, que permite a José Luiz brincar com diferentes tempos históricos. (Até Napoleão Bonaparte entre pela janela…). A figura da cozinheira emerge para lembrar a família e a origem alagoana de Floriano. Além da matriarcal habilidade feminina na cozinha, quem sabe, o autor insinua afinidades de gênero com a presidente Dilma Rousseff que vira personagem da vida real, com direito a transcrição de trechos de suas falas, adaptados à técnica ficcional. Até o discurso feito às vésperas do impedimento de Dilma lá está, incluído de última hora!

E o professor?

O professor intervém com pedantismo, arrota erudição, cita a propósito e sem propósito autores como Adam Smith, Karl Mark, Clarice Lispector. Em resumo um chato! Perguntado por que caricaturar dessa maneira o professor, sendo ele mesmo um acadêmico, José Luiz respondeu sem ironia: vivo nesse meio, foi fácil caracterizar o personagem…

José Luiz Passos mergulhou na biografia de Floriano Peixoto e sua época. O romance respeita fatos históricos sem precisar recorrer as aspas, notas de rodapé e excessos de datas, usuais em ensaios, mas impróprios em obras de ficção.

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