[FRASSALES CARTAXO] Maria da Penha na Arena Castelão


Ela não dava sossego ao meia-atacante do Ceará Sporting. Todas as vezes que a bola rolava na direção de Wescley ela esbravejava. Havia mais de onze mil torcedores na Arena Castelão, no dia 20 de setembro, para ver o time do Ceará enfrentar o Luverdense, do Mato Grosso, pela série B do campeonato brasileiro de futebol. Fiquei no meio do povão, levado pelo sobrinho Sérgio Cartaxo, sócio do clube, vozão fanático. A partida em si não foi lá essas coisas. O time cearense andava meio capenga, nove rodadas sem conseguir vencer! Naquela noite de terça-feira, por mais que se esforçasse, amarrou-se no zero a zero, embora tenha feito por merecer a vitória, ao jogar com notável agressividade, diante de um adversário empenhado mais em defender-se do que em atacar.

Inusitada agressividade verbal agitava a galera.

Na fila de cadeiras, logo atrás de mim, torcedora de seus 40 anos, se esgoelava pelo seu time. E pela lei. Não era reação coletiva, tão comum em estádios de futebol, a mãe do juiz ou do técnico ou bandeirinha a pagar pelos pecados do filho… Nada disso. Ela mirou um jogador. Um só, específico. Bastava Wescley dominar a bola, vinha o grito: Maria da Penha, passa logo a bola, feladaputa, corre, Maria da Penha, fiderapariga, chuta,chuta, corno safado. Não deu descanso ao meia-avançado do Ceará, marcando sob pressão o tempo todo, com um rosário de impropérios muito mais cabeludos do que esta pequena amostra que eu selecionei…

Por que tanta agressividade?

Wescley Gomes dos Santos, 24 anos, carioca, jogou no Flamengo, Santa Cruz, Chapecoense, Ferroviária, de Araraquara, de onde saiu para retornar ao Ceará Sporting, desta vez, trazendo sua namorada de cama, mesa e rede. Mal chegou a Fortaleza, em maio deste ano, um arranca-rabo com Ana Beatriz acabou na Delegacia da Mulher, sendo indiciado por estupro, tortura e agressão, conforme Boletim de Ocorrência (BO), de 28 de maio. Uma iniciativa da companheira, que, grávida de três meses e cansada de levar porrada, criou coragem e o denunciou.

A confusão frequentou a mídia.

Alguns torcedores do vovô ensaiaram movimento para impedir a contratação de Wescley. O advogado explicou: é uma briga de marido e mulher um pouco mais séria, disse, tentando abafar o caso. Não conseguiu. Mesmo assim, Wescley foi a campo contra o Oeste, de São Paulo, e fez o gol da vitória do Ceará! Naquela ocasião, 21 de junho, o técnico Sérgio Soares explicou as razões do sucesso de seu time:

A gente precisava de mais agressividade, e o Wescley tem essa agressividade, foi isso que fez a gente chegar ao resultado positivo nesta noite.

Perceberam? Sérgio Soares usou duas vezes a expressão agressividade! E não foi por mera coincidência… A palavra brotou espontânea do seu inconsciente, preocupado com a conduta de seu jogador, enquadrado na Polícia como agressor da própria namorada, por excesso de ciúme, ao descobrir que Ana Beatriz criara perfil em rede social, sem ele saber!

Se o clube cearense lhe concedeu o perdão, a torcedora – minha vizinha de cadeira na Arena Castelão -, não o fez. E por meio de xingamento alardeado aos berros lavrou seu indignado protesto, mostrando que a Lei Maria da Penha é uma realidade presente na vida das pessoas comuns, ao ponto de ter espaço na galera do futebol.

wescley

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