Cajazeiras-PB, 24/10/2017

[FRASSALES CARTAXO] Lembrança de Dom José González Alonso

Dom José González Alonso foi durante mais de dez anos bispo da diocese de Cajazeiras. Mesmo tendo nascido em terra longínqua, no além-mar, integrou-se muito bem à sociedade sertaneja, embora conserve o sotaque de estrangeiro. Neste domingo, toma posse o novo prelado, dom Francisco de Sales, sertanejo feito a gente, a quem desejo, desde já, profícua gestão episcopal.

Não sendo político, e muito menos partidário, dom José coordenou, em 16 de setembro de 2008, concorrido e proveitoso debate, no auditório da FAFIC, entre os dois candidatos a prefeito de Cajazeiras, Léo Abreu e Mário Messias-Marinho. Estimulado pelo significativo encontro, escrevi crônica para o jornal O Norte, de João Pessoa, que agora transcrevo.

O bispo e a eleição

Francisco Cartaxo Rolim

Houve época em que bispos e padres envolviam-se em lutas políticas de tal modo que até criaram legendas para disputar eleições, como a Liga Eleitoral Católica (LEC). Na ditadura recente, muitos cristãos se arriscaram na proteção de perseguidos, em defesa dos direitos humanos. Mas isso é assunto do passado. Quero falar do hoje. Guardadas as diferenças de método e escala, a ação pastoral adquire maior ou menor significado para a cidadania, a participação da comunidade nas decisões políticas. A esse respeito, o apoio à realização de debate entre candidatos a prefeito merece destaque, porque proporciona à comunidade um espaço democrático, suprapartidário, capaz de permitir o confronto necessário à avaliação correta das propostas de governo, do preparo e da desenvoltura dos postulantes.

Faço essas considerações sob o estímulo de evento ocorrido no dia 16, no Centro Pastoral da Diocese de Cajazeiras, o auditório superlotado, muita gente no pátio da FAFIC, e milhares de ouvintes sintonizados em uma das três emissoras de rádio que transmitiram o encontro político. Os dois candidatos a prefeito expuseram seus programas, em quatro blocos temáticos, após preleção a cargo de professores vinculados à ação da igreja. Houve aplausos e vaias, como é normal em clima de campanha acirrada, mas nada que extrapolasse os limites da convivência entre contrários.

O papel desempenhado pelo bispo dom José Gonzáles Alonso foi decisivo para a manutenção do nível elevado do debate, com realce para sua fala inicial. Ao ler e comentar Nota da CNBB, acerca das eleições, dom José abordou assuntos relevantes, como a responsabilidade que cabe a cada um e a todos nesta eleição. Citou pontos essenciais ao exercício da cidadania, a exemplo do processo de escolha dos candidatos, que deve privilegiar a audiência prévia à comunidade, condenou a compra e venda do voto. Quem vende é tão corrupto quanto quem compra. Novidade? Não. Já ouvimos isso muitas vezes. Mas escutar no calor do auditório, com a firmeza, a veemência com que dom José Alonso deu a sua voz, é momento para não esquecer jamais.

A nota dissonante foi a postura do atual prefeito de Cajazeiras, que se despiu de sua condição de autoridade civil mais importante do município e assumiu conduta de militante a instigar correligionários, até mesmo quando dom José pedia à plateia calma, paciência e tranquilidade. Ao próprio bispo coube, de modo discreto e educado, a tarefa de contê-lo. Não escrevo por ouvir dizer. Estava presente e próximo dos dois.

P S – O texto foi publicado na seção “espaço livre”, de O Norte, de 23 de setembro de 2008. O jornal, lamentavelmente, não mais existe.

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SOBRE FRASSALES CARTAXO

FRASSALES CARTAXO
Francisco Sales Cartaxo Rolim é autor do livro, Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero.

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