Cajazeiras-PB, 19/10/2017

[FRASSALES CARTAXO] Cangaço e ficção

Uma folha caída no chão, o canto de um pássaro, um corpo estendido no chão, o chicote na mão do pai, um lenço branco a tremular, o abraço de despedida, um homem escanchado feito um porco, o grito do professor, um gesto com a mão, o olhar triste, uma mulher nua. Qualquer coisa assim, vinda do fundo da memória, incendeia a imaginação do escritor e o leva a construir seu castelo literário. Sem compromisso com a realidade que lhe deu origem, mero pretexto para exercitar a liberdade de escrever sem as amarras impostas pelo balizamento científico. Se isso é forte, imagine o mundo do cangaço, com suas histórias passadas de geração a geração!

E os romances históricos?

A ficção dispensa nota de rodapé. Do contrário, não seria romance ou conto ou novela. Seria História.  O máximo é não agredir os fatos tomados como pano de fundo, registrados e consagrados na historiografia. E mesmo assim, ainda resta o mundo fantástico, a dar cores de realismo… O cangaço tem sido objeto de estudos sociológicos, históricos, psicológicos, antropológicos e de registro memorialistas e da imprensa.  Serve também de modelo para a escrita ficcional, desde Franklin Távora, com o livro O cabeleira (1876), por ele chamado de tímido ensaio do romance histórico, seguido, vinte anos depois, por Rodolfo Teófilo no seu Os Brilhantes, publicado em 1895. Para citar apenas dois pioneiros da narrativa literária sobre banditismo, que, mais tarde, no século XX tiveram em José Américo (Coiteiros) e José Lins do Rego (Cangaceiros) alguns dos seus expoentes.

Por que toco nesse tema?

Estimulado pela releitura do romance Carcará, de Ivan Bichara Sobreira, sobretudo, pela terrível confusão que se faz entre ficção e história. Em função disso, às vezes usamos a régua da ciência para enquadrar a arte, superestimando aspectos secundários da obra literária em detrimento de avaliação correta das qualidades ou deficiências da criação artística. No caso de Carcará, o próprio Ivan Bichara, aliás, contribuiu para estreitar a mistura, ao advertir o leitor com estas palavras:

A narrativa se reporta ao assalto do bando de cangaceiros chefiados por Sabino Gomes a Cajazeiras, PB, em 1926. Qualquer semelhança com pessoas da vida real terá sido, entretanto, mera coincidência.

Ivan fez pior.

O narrador onisciente recorre a personagens reais, com nome e sobrenome, a partir do protagonista, Sabino Gomes, induzindo o leitor a ver em Carcará um texto de História e não uma obra de arte ficcional. Figuras de carne e osso, conhecidas demais para serem dissociadas da mera coincidência, de sua nota. E são muitas. O juiz Victor Jurema e seu filho, Otacílio Jurema, Hildebrando Leal, Cristiano Cartaxo, o tio Epifânio Sobreira, seu próprio pai, João Bichara, padre Gervásio Coelho, Antônio de Sousa, Cornélio Andrade, Dimas Andriola e muitos outros estão no elenco de personagens. O major Zuza Garcia, por exemplo, aparece com a indicação de (José Bernardino de Sousa), assim mesmo, com o nome completo entre parênteses!

Todos mostram suas características reais, profissionais. Lá estão os “heróis” da resistência ao assalto de Sabino Gomes, como Romeu Menandro Cruz, Marechal, que também é citado com seu nome de batismo entre parênteses (Joaquim Sobreira Cartaxo). Ao escrever o romance, tendo o cangaço como modelo para sua criação literária, Ivan Bichara apegou-se em excesso ao mundo real, concorrendo assim para ampliar a confusão entre História e ficção.

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SOBRE FRASSALES CARTAXO

FRASSALES CARTAXO
Francisco Sales Cartaxo Rolim é autor do livro, Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero.

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