Cajazeiras-PB, 18/10/2017

[FRASSALES CARTAXO] Atraso na Transposição e o fogo do inferno

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Em pleno século 21 carros-pipa povoam as estradas do Nordeste. Os efeitos dramáticos no passado – sede, fome, morte por inanição, levas de retirantes esqueléticos, como retratados por conhecidos escritores -, deram lugar a outros graves problemas. Antes, a falta d’água e de comida era a consequência mais funesta e imediata da seca. Hoje o abastecimento de gêneros alimentícios se resolve graças à rapidez do transporte de qualquer parte do Brasil para o semiárido. E o Bolsa-Família salva da fome aguda os muito pobres.

Mas, e a água?

Agora, falta água. A população concentra-se nas cidades, o que leva a um extraordinário aumento da demanda por água. Esgotadas as reservas hídricas, em função de seguidos invernos fracos, instala-se o caos. É o que se passa em muitos centros urbanos, sendo Campina Grande, talvez, o maior e mais simbólico caso. Fortaleza a candidatar-se à tão angustiante primazia. Por isso, toda essa grita contra o atraso na transposição.

Transportar água do Rio Francisco para os estados mais secos do Nordeste é ideia antiga e polêmica. Nasceu quando a estiagem em anos contínuos escancarou a vulnerabilidade da produção agrícola e da sobrevivência de homens e bichos. A ideia pintava e logo morria ao cair das chuvas. Isso até o governo Lula. O projeto de trazer água do Velho Chico veio embalado em polêmica de múltiplas faces. Quem se beneficiará da transposição: o agronegócio ou a agricultura familiar? A água deve ser usada para irrigação ou no abastecimento humano? E assim por diante.

A seca prejudica a todos.

Os pequenos mais fortemente, é claro. Difusa nos meados do século 20, a ideia da transposição evoluiu para o projeto de integração das bacias hidrográficas, consolidado quando o governo do PT decidiu executar o grandioso e complexo empreendimento. Então surgiram exaltados opositores da transposição, que encenaram um simbólico espetáculo midiático: a greve de fome do bispo da diocese baiana de Barra, com direito à visita da atriz Letícia Sabatella. Vamos salvar o Velho Chico! Tolice. Não há relação de causa e efeito entre a vinda da água e a degradação do grande rio.

Outra polêmica nasceu da premissa de que a transposição serviria para fortalecer mais ainda o latifúndio. Portanto, os maiores beneficiários do projeto seriam os donos de grandes propriedades rurais, com reflexo imediato no aumento do peso político de facções partidárias anacrônicas. Tal previsão emenda com esta realidade: dada a magnitude dos investimentos, o projeto beneficiaria grandes empreiteiras de obras públicas, porta aberta para as relações promiscuas entre empreiteiras/governo/políticos/partidos.

A corrupção se associa, também, ao atraso nas obras.

Assim, a corrupção alinhou-se a uma sequência de erros na gestão executiva da transposição, a começar pelas licitações de obras com projetos técnicos inconsistentes. Isso gerou descompasso entre o projetado e as condições reais de execução das obras, favorecendo mais ainda a sistemática distribuição de propinas a empresários, burocratas e políticos da base governista. Lembre-se que as empreiteiras atoladas na Operação Lava Jato são as mesmas da transposição. O atraso na integração das bacias hidrográficas é, assim, inseparável do perverso esquema de má gestão imposto à Petrobras e a outros entes estatais. O resultado aí está. A água, presa em canais inconclusos, está bem pertinho da gente, mas não chega. Por isso, frotas de carro-pipa invadem as estradas do sertão.

Não costumo jogar praga. Mas se alguém desejar a esse magote de incompetentes e corruptos o fogo do inferno… eu acho é pouco!

SOBRE FRASSALES CARTAXO

FRASSALES CARTAXO
Francisco Sales Cartaxo Rolim é autor do livro, Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero.

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