[FRANCELINO SOARES] De roupas, usos e costumes


Aos meus leitores, eu já lhes falei sobre as doces e encantadoras lembranças que nos vêm à mente, relacionadas aos nossos primeiros passos, na ida à escola, no primeiro dia de aula. Embora, em geral, fôssemos frequentar uma escola municipal, mantida, portanto, pela Prefeitura, dispúnhamos de professoras que nos encantavam e das quais fazíamos como se fosse um prolongamento do nosso próprio lar. Assim é que nos vem novamente à memória a forma afetiva e respeitosa com que as tratávamos e por elas éramos tratados.

Daí é que, como já lhes falei em uma das colunas passadas, o tratamento que dávamos a elas era sempre através do uso de um diminutivo, que representava mais carinho do que pequenez. Só para lembrar algumas, citamos as Donas Fazinha, Doninha, Nicinha e Nazinha. Já no final da infância é que vieram as outras, como Donas Noêmia, Acácia, Celsa…

Essas considerações, como não poderia deixar de ser, nos remetem aos primeiros dias de aula: na mão, apenas lápis grafite, borracha, um (apenas um) caderno, além das indefectíveis Carta de ABC e Tabuada. Somente, ao final do ano, é que vinha o papel pautado, que nos traz à lembrança a prova final, em busca de avançarmos de ano para atingir, então, a turma da Cartilha.

Mas era no trajar que vinha o cuidado doméstico de ostentarmos uma bem engomada calça curta, em tom azul claro, com uma camisa branca. Era a glória! Primeiro dia de aula!… Sim, calça curta mesmo, pois a calça comprida somente lá para os doze, treze, quatorze, ou até quinze anos.

A capa do caderno de antanho, que ilustra esta Coluna, nos traz a nitidez dessas lembranças, porém com um contraste gritante com o usual da época: pelo menos em Cajazeiras, como em outras cidades interioranas, não se usavam calças compridas, nem mesmo por ocasião da 1ª comunhão, para a qual éramos preparados, ali mesmo, na escola primária, pelas chamadas professoras catequistas.

Como dissemos, as calças eram sempre curtas, embora já, em outros ambientes, fosse recomendado para os meninos o uso de macacões, em geral sustentados por suspensórios, e confeccionados em brim azul claro. Mas, era assim mesmo… A propósito, essas roupas eram sempre confeccionadas domesticamente. Como não havia essas lojas de hoje, especializadas na venda de roupas feitas – calças, camisas, uniformes – recorria-se aos alfaiates e às costureiras, quando necessário.

Dai é que abundavam as lojas de tecidos, hoje já quase completamente extintas do nosso dia a dia. Por falar nelas, mereciam destaque na época, além de A Pernambucana, as lojas de propriedade de Timóteo Pereira, Werneck, Chico Rolim, J. Claudino, Midu… Nelas, buscavam-se os tecidos da moda, do tempo e para várias finalidades: cambraia, tafetá, tule (tecido feminino de alto luxo), gabardine, anarruga, organdi, seda, renda bordada (Chiquinho Sobreira era o especialista), brim, mescla, cáqui, tropical, tergal, tricoline, casimira, linho, nylon, rayon

Os alfaiates mais requisitados eram Sérgio David, Zé Peba, Otacílio Mendonça, Otaviano (pai do nosso amigo bancário Otavino Alves), e as costureiras eram Adelita (modista e conselheira de modas, para o que hoje se chamaria hight society), Madrid, Regina (mãe dos amigos Zé Renato e Socorro Lima), Lourdes, Chicola, Elvira, Rosa de Braz e muitas… muitas outras.

Por essa época – início dos anos 50 –, após o fim da desgraçada II Guerra Mundial, é que vieram até Cajazeiras os benefícios da industrialização, entre os quais, ainda dentro do tema, merecem destaque as famosas máquinas de costura Singer e Leonan. Era o tempo também dos bicos de renda, almofadas, bilros e alfinetes

Depois é que vieram as primeiras lojas de confecções – roupas prontas – e, nesse item, merecem destaque a Camisaria Nogueira e Chose Boutique, com as camisas Valisère, Volta ao Mundo e as calças jeans, seguindo o modismo oriundo da Capital, cuja primeira loja do ramo eram as famosas Lojas Seta, as lojas dos homens elegantes. As mulheres nem sequer pensavam em usar calças jeans ou os “inocentes” shorts. Como diz o aforismo latino, O tempora, o mores! (Oh tempos, oh costumes!)

________________

(Na ilustração) O primeiro caderno escolar dos que foram meus contemporâneos: motivo de orgulho e satisfação. (Bem diferente de hoje, não?!)

Previous [JOSÉ ANTONIO DE ALBUQUERQUE] Escravos do Estado
Next [FRASSALES CARTAXO] Combate à corrupção sistêmica

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *