[DOM FRANCISCO DE SALES] Sonhar juntos um sonho de Igreja…


Caríssimos irmãos no episcopado, Ilustríssimos representantes das autoridades constituídas, queridos sacerdotes do clero de nossa Diocese e de outros lugares, seminaristas, religiosos e religiosas, leigos e leigas, membros e representantes das diversas pastorais, movimentos, associações, paróquias e comunidades que compõem a nossa Igreja diocesana, queridos fiéis e amigos vindos de tantos lugares, homens e mulheres de boa vontade…

Gostaria de iniciar esta saudação, dirigida a toda a Diocese, com um ato de reconhecimento e agradecimento ao Senhor por me ter chamado a caminhar com vocês como bispo e pastor. Tenho sentido e experimento a cada dia que este chamado procede de uma ação de pura misericórdia da parte d’Aquele que me escolheu que, com a sua ternura e paciência de Mestre e pedagogo, tomou-me pela mão e me introduz pacientemente na compreensão da missão que me foi confiada. Agradeço de coração as tantas manifestações de vizinhança, de acolhida e de encorajamento que recebi dos meus diocesanos depois do anúncio da minha nomeação. Foram pequenas gotas de ânimo, de confiança, de esperança e de solidariedade que me ajudaram a vencer as perplexidades e temores que se aninhavam em meu coração enquanto eu me colocava diante da imensa responsabilidade que me foi confiada.  Agora que nos encontramos, espero poder contar com ombros de cireneus dispostos a ajudarem o seu pastor a levar com responsabilidade e alegria a cruz do seu ministério.

Tenho consciência de que é digno de quem chega, bater à porta, gritar “oh de casa”, e pedir permissão para entrar. Por isso, como escrevi na mensagem que enviei à Diocese, logo após a minha nomeação, renovo hoje a todos vocês o meu pedido “para entrar em suas casas e em seus corações e começar a fazer parte de suas vidas e da história centenária desta fecunda Igreja Particular”. Não trago em meu coração “nenhuma pretensão ambiciosa” (Sl 130, 1), como nos ensina o salmista, mas somente um desejo de servir-lhes com todas as minhas forças. Chego até vocês com os pés descalços, com o coração aberto e com grande respeito pela história e pelas pessoas que são responsáveis pelo dinamismo, pela vitalidade, pelo testemunho e pela santidade de nossa Igreja Diocesana. Coloco-me no meio de vocês “como aquele que serve”, com a consciência de ser um simples instrumento nas mãos do Bom Pastor, a quem suplico o dom da humildade para poder apascentar com solicitude a grei que me foi confiada, “cuidando dela não por coação, mas respeitosamente, como Deus quer; não por ambição, mas livremente, não como dominador, mas sendo exemplo para o rebanho” (Cfr. 1Pe 5, 2-3).

O Senhor me concedeu a graça de ser nomeado bispo de Cajazeiras, pelo Papa Francisco, no transcorrer deste Ano da Misericórdia, Jubileu proclamado pelo Santo Padre como coroação das celebrações de aniversário de 50 anos do Concilio Vaticano II, evento querido por São João XXIII que, segundo ele, foi maturado no seu coração como “a flor espontânea de uma primavera inesperada” para ser “um sopro de vento fresco” e renovador para toda a Igreja. Certamente este fato confere àquele que foi escolhido uma grande responsabilidade em sua missão de Pastor e delineia horizontes bem concretos para poder pensar a vida e o dinamismo da porção da Igreja que lhe foi confiada. Tenho consciência de que, não obstante os caminhos já percorridos, ainda encontramos algumas resistências e obstáculos a serem vencidos, tanto do ponto de vista do conhecimento e da consciência do significado do evento conciliar quanto da prática pastoral por ele suscitada, para encarnar o seu espírito de renovação que deve incidir concretamente em nossa realidade, saborear e experimentar os frutos, a vivacidade e o dinamismo vividos e propostos pelo Concilio a toda a Igreja.

Neste tempo de instabilidade e incertezas, nossa missão e responsabilidade comuns nos impõem um desafio: mais do que nunca somos impelidos a lutar contra qualquer tentação de retrocesso, alimentada pelos ressentimentos de tantos profetas do pessimismo e da desventura que, fechados em pequenas ilhas de fantasia, construídas para sua própria segurança, tentam a todo custo, impor soluções anacrônicas e auto referenciais que não respondem aos desafios e urgências da missão da Igreja no mundo de hoje. Por outro lado, nem tampouco podemos ceder às interpretações e práticas superficiais que deturpam o verdadeiro espírito da renovação conciliar e desfiguram a face da Igreja através da propagação de ofertas baratas e soluções mágicas vinculadas a uma religiosidade de mercado, epidérmica e ilusória, que invade o cenário de nossa Igreja, deforma a fé, transformando-a em espetáculo, confunde o testemunho com a fama, dilui a força da comunidade de fé em uma massa disforme incapaz de ser, pela energia do evangelho vivido e testemunhado, fermento de transformação do mundo e sinal de salvação para a humanidade.

Faço-lhes, pois, queridos irmãos e irmãs, um convite para que possamos reafirmar hoje, enquanto juntos começamos a percorrer mais uma etapa de nosso caminho como Igreja Diocesana, o nosso dever eclesial de “fidelidade ao Concilio” (Beato Paulo VI), com a responsabilidade de compreendê-lo em profundidade e de atuá-lo em nossas comunidades, conscientes de que ele continua a nos oferecer “uma bússola que permite à nave da Igreja de aventurar-se em mar aberto, em meio às tempestades, ou em ondas calmas e tranquilas, para navegar segura e chegar à meta” (Bento XVI – Audiência Geral 10/10/2012). A sua relevância continua atual e deve gerar em nossos corações a gratidão pelo dom que nos foi concedido, inflamar o desejo e a responsabilidade de empreender um sincero caminho de conversão pessoal e  pastoral, reafirmando com a nossa práxis aqueles valores que são caros ao impulso de renovação proposto pelo Concílio e confirmado em tantos outros documentos do magistério, de modo particular por aqueles do episcopado latino-americano. Ei-los:  o desafio sempre fatigoso de caminhar juntos (sinodalidade) enquanto peregrinamos pelos caminhos da história; a construção de novas relações no interior da Igreja inspiradas no princípio da comunhão e complementariedade de todos os membros do Povo de Deus;  o testemunho de um novo estilo de aproximação com a história e com a realidade tão fragmentada do mundo no qual estamos inseridos, com a habilidade de eleger o diálogo paciente e perseverante como força profética de transformação da realidade e de construção de um mundo mais conforme o projeto de Deus, aspectos tão enfatizados em nosso continente latino-americano pela nossa última conferência geral em Aparecida e retomado com tanta força para toda a Igreja universal pelo nosso atual pontífice.

Nesta responsabilidade comum somos desafiados pelo Papa Francisco a redescobrir a via da misericórdia como caminho seguro através do qual toda a Igreja é convocada a repensar a si mesma e qualificar a sua ação evangelizadora, olhando o mundo em sua complexidade através das pupilas do amor misericordioso de Deus. Ele nos declara que: “A viga mestra que sustenta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura com a qual se dirige aos fiéis; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo. (Misericordiae Vultus, 10).

Este olhar misericordioso está na raiz da percepção que levou a Igreja a empreender a grande aventura da renovação conciliar. São Joao XXIII no seu famoso discurso da lua já declarava: “Quanto ao tempo presente, a Esposa de Cristo prefere usar a medicina da misericórdia ao invés de empregar as armas do rigor; pensa que se deve ir ao encontro das necessidades atuais expondo com clareza o valor do seu ensinamento mais do que condenando”. (Joao XXIII, Discurso da lua). À luz destas intuições que desenham a face da Igreja que manifesta sua “plena adesão ao Concilio”(Mensagem final do Sínodo dos bispos, 07 12-1985), estou convicto de que é nosso dever, enquanto Igreja Particular, afirmar e assumir a misericórdia como nota fundamental de nossa identidade e de nossa ação pastoral, a fim de que possamos dar credibilidade à nossa presença e ação no mundo, seja como indivíduos, seja como comunidades, com a esperança de que, como afirma o Papa Francisco, “onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia” (Misericordiae Vultus, 12). Trilhando este caminho poderemos manifestar a face de uma igreja que, na sua simplicidade e audácia evangélica, está disposta a inserir-se no mundo como “aquela que serve”, fazendo-se próxima das realidades humanas e de seus clamores, respondendo à sede de caridade, com a construção de poços de ternura e de bondade onde todos podem matar a sua sede e revigorar suas forças.

Sei que esta não é a ocasião para falar-lhes de projetos pastorais, pois apenas acabei de dar os primeiros passos no solo desta Igreja Particular que está em movimento. Devo entrar no ritmo de sua caminhada com a consciência de um aprendiz através da escuta, do diálogo e da habilidade de cadenciar o meu passo com o compasso daqueles que já percorrem o caminho e que são diretamente responsáveis pelo dinamismo pastoral e pela vitalidade de nossa Diocese. Uma palavra mais indicativa demandará tempo e abertura humilde à ação do Espírito Santo, em atitude de escuta comunitária da vontade de Deus, em confronto com os desafios, urgências e exigências que nos serão impostos, conscientes das forças, fraquezas e oportunidades presentes no seio de nossa Igreja Diocesana. Este caminho nos permitirá que, sustentados por um espírito de comunhão, colaboração recíproca e corresponsabilidade, com muito esforço e realismo, possamos construir as respostas que Deus espera de nós neste tempo que Ele nos concede para caminharmos juntos.

Atrevo-me somente a compartilhar com vocês algumas convicções sobre a vida e a missão da Igreja que são caras ao meu coração de pastor. Elas encontram sua razão de ser, naquilo que recebemos como patrimônio comum para ser custodiado, vivido e transmitido com criativa fidelidade através da força do nosso testemunho.  São valores a serem acolhidos por todos como impulsos para uma sincera conversão de mentalidade e de vida, a fim de que o caminho proposto pelo Concilio, na sua surpreendente atualidade, possa continuar a projetar sua luz e força sobre os passos de nossa Igreja Diocesana, despertando-a para uma perseverante responsabilidade de produzir frutos de uma autêntica experiência de renovação em vista da evangelização e da missão.

Na qualidade de servo e pastor, convido todos os “servidores e servidoras da Igreja”, responsáveis pelo dinamismo de sua missão, a se fazerem enamorados da beleza do mistério do Corpo Místico de Cristo, a confrontarem quotidianamente nossa realidade presente com os traços que o divino Fundador imprime em sua Esposa. Deste confronto contemplativo com o ideal de Igreja querido pelo Senhor, nascerá, como afirmava o Beato Paulo VI, uma “necessidade quase impaciente de se renovar” (Cfr. Ecclesiam suam, 4).  Embalados, pois, pelo amor que nos une à Esposa de Cristo nossa Mãe comum e pela inquietação de vê-la cada vez mais próxima e fiel à sua imagem ideal, convido-lhes a construirmos um sonho de Igreja, enquanto escrevemos esta nova página da história de nossa Diocese. Convoco todos a assumirmos juntos esta delicada e fascinante missão que, como nos deixou claro o Concílio, é de todos nós batizados, chamados a ser Igreja na mesma dignidade de Filhos e Filhas de Deus, participando na construção responsável do Reino a partir do específico dos estados de vida de cada um de nós. Não nos deixemos desencorajar pelas experiências negativas, ou pelas fadigas geradas por aquelas tentativas nem sempre bem-sucedidas; nem tampouco nos fechemos na tentação da lógica do “assim sempre se fez”. Acolhamos o convite do Papa Francisco que nos encoraja a sermos “audazes e criativos na responsabilidade de repensarmos os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos” (Evangelii Gaudium, 33) que manifestam o nosso jeito de ser Igreja. “Não deixemos que nos roubem a capacidade de sonhar”, não nos fixemos jamais em nossas pequenas zonas de conforto onde tudo nos parece favorável, porém nos atrofia, impedindo-nos de nos projetarmos para além das contingências do nosso presente e abrirmos os olhos para enxergar os campos que “já estão prontos para a colheita” (Jo 4, 35) e experimentar, na novidade, a ação sempre criativa e vivificante do Espírito que nos oferece uma oportunidade sempre nova para darmos novo impulso à vida e à missão.

Tendo em mente a imagem do escriba-discípulo do Evangelho que que “como pai de família tira do seu tesouro coisas novas e antigas” (Mt. 13,52), proponho-lhes alguns traços de um desenho de Igreja que podemos colorir juntos com a riqueza da nossa experiência de fé, com diversidade própria de nossa realidade eclesial, com a participação consciente e responsável de cada um de nós, em atitude de total abandono ao Espírito, alma da Igreja, que suscita o novo no coração daqueles que se deixam por Ele conduzir.

Convido-lhes a sonhar com uma Igreja que não cai na tentação de querer brilhar com luz própria, mas reflete sempre, em tudo, a luz de Cristo; uma Igreja que anuncia o Evangelho e é capaz de refletir no seu rosto a alegria e a luz resplandecente da boa nova anunciada por Jesus (cfr. Evangelii Gaudium, 1); uma Igreja que se reveste de humildade e simplicidade, que a exemplo de seu fundador e “conformada” a ele seja  capaz de testemunhar uma pobreza objetiva, sem ceder aos triunfos mundanos; uma Igreja que manifesta sua presença e autoridade no mundo mais com o exemplo e o testemunho autêntico  do que com as palavras; uma Igreja consciente de que sua credibilidade é mais visível quando “ela fala menos de si mesma e anuncia sempre mais Cristo crucificado,  testemunhando-o com a própria vida”(Mensagem final do Sínodo dos Bispos 09/12/1985).

Uma Igreja que bebe na fonte viva da Palavra de Deus, que se deixa nutrir e libertar pela Palavra, que utiliza todos os meios para que cada fiel, cada comunidade, possa conhecer, amar, viver, respirar e proclamar com autentico testemunho a Palavra Sagrada. Que reconhece na Palavra “uma fonte inexaurível de fecundidade espiritual; um valor profético que reveste com o sopro do Espírito Santo todas as situações humanas”; que reconhece nela a fonte do anúncio, da catequese, da formação e do sustento espiritual de todos os batizados. (Cfr. Paulo VI, Audiência Geral 01/06/1970).

Uma Igreja que modela sua capacidade de doação na entrega total do seu Senhor e coloca a Eucaristia como centro e ápice de sua vida e de sua missão, que faz tudo “em memória” do Mestre. Que se constrói como “um só corpo e uma só alma” formando comunidade na unidade em torno da mesa eucarística, “sacramento da caridade e vínculo de perfeição” que une todo o Povo de Deus (S. Tomas de Aquino).

Uma Igreja que celebra os mistérios de Cristo, isto é, os Sacramentos, com profundo respeito por aquilo que recebeu e com a consciência de que “nos sacramentos toma forma e corpo a Palavra da Salvação e Jesus se encontra com o homem em um modo que é totalmente humano” (Walter Kasper, Il Futuro della Forza del Concilio, p. 81). Que cultiva grande reverência e fidelidade à Liturgia e aos ritos, tal como nos foram transmitidos pela tradição e aprovados pelo Magistério da Igreja. Que promove um conhecimento profundo da liturgia e da disciplina litúrgica, a partir dos princípios da renovação da liturgia aprovados pelo Concilio, sem cair na tentação de inserir novidades subjetivas que deturpam o sentido dos mistérios celebrados, nem tampouco atar-se a formas já ultrapassadas que não mais respondem às necessidades de uma evangelização renovada.

Uma Igreja que anuncia o Evangelho com a consciência de que “evangelizar não é um ato individual e isolado, mas profundamente eclesial, um ato da Igreja” (Evangelii Nuntiandi, 60) que exige dos seus atores o compromisso de fidelidade, e a coragem de fugir às improvisações e aos personalismos e sentir com a Igreja, em obediente acolhimento aos caminhos por ela propostos. Uma comunidade de fé que não tem medo de promover e utilizar todos meios aos seu dispor para comunicar a boa notícia do Evangelho ao mundo de hoje.

Uma Igreja preocupada com a “inteligência da fé” e com a instrução de seus filhos e filhas; que acredita e promove a formação dos seus membros em todos os níveis, para que todos possam compreender em profundidade a própria fé e, com a capacidade concedida por Deus e a maturidade de uma consciência bem formada, para responder a quem pede uma palavra sobre a esperança que nos faz cristãos. (Cfr. 1Pe. 3, 15).

Uma Igreja que reflete o esplendor de sua beleza na santidade de seus membros e na transparência de suas estruturas; que não se deixa corromper nem se prender na teia mundana das soluções fáceis e das dissimulações hipócritas. Que manifesta sua autenticidade com a clareza da responsabilidade de ser um sinal profético para o mundo também no cuidado com os bens temporais que lhe foram confiados.

Uma Igreja de porta e coração abertos para acolher a todos, que não privilegia nenhuma categoria e manifesta sua maturidade como comunidade cristã, no acolhimento, promoção e incentivo da fecundidade dos carismas suscitados (Cfr. LG,12) para a edificação do Corpo Místico de Cristo como “templo espiritual” (Cfr. 1Pe, 2,5); que segue pelos caminhos da história atenta aos sinais da presença do Espírito Santo no nosso tempo e nos lugares nos quais ele se manifesta, valorizando todos os serviços e ministérios na unidade de uma única comunhão.

Uma Igreja que, a exemplo do bom samaritano, não teme parar diante daqueles que se encontram feridos. Sem preconceitos, oferecendo-lhes atenção, tocado o seu corpo ferido, servindo-lhes e lhes restituindo a dignidade roubada; uma Igreja que não se deixa intimidar pelo medo, que caminha com os pequenos, e não se envergonha do ser humano, de suas fragilidades e sofrimentos, proporcionando-lhe o unguento da ternura e da misericórdia, participando de suas dores e penas, fazendo de sua missão uma grande obra da consolação. Uma Igreja que descobre que “a caridade é a forma que a evangelização assume quando parte das periferias e não do centro” (Enzo Biemmi La nuova evangelizzazione ala luce dell’Evangelii Gaudium)

Uma Igreja capaz de nominar as novas e velhas pobrezas e se aventurar com risco e audácia para ajudar resgatar e promover os pobres em sua dignidade; uma Igreja consciente de que hoje e sempre, «os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho», e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos! Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! (EG 48,49).

Uma Igreja que constrói com esforço e responsabilidade um novo modo de relações a partir do princípio da comunhão e participação cultivado e vivido em todos os níveis como vocação, que abraça todos os âmbitos da vida eclesial (bispo, presbitério, religiosos, leigos); que reconhece o lugar e o protagonismo de cada um dos seus membros; que cresce através do diálogo, do discernimento comunitário, da conversão permanente, de modo que “todo o corpo, bem ajustado e com todas as suas partes ligadas pelas juntas, segundo a energia própria de cada membro, recebe força para crescer, edificando-se a si mesmo na caridade” (Ef, 4,16).  Uma Igreja de cireneus solidários que se dispõe a levar os fardos uns dos outros, expulsando toda a tentação egoística que gera competição, carreirismo, apego doentio a cargos e funções e lugares e insere todos em um dinamismo de doação itinerante e serviço oblativo na liberdade e gratuidade.

Uma Igreja comprometida em realizar a passagem de uma “pastoral de conservação a uma pastoral decididamente missionária” assumindo as exigências da missão e o empenho de “sair da própria comodidade e ter a coragem de ir ao encontro de todas as periferias que necessitam da luz do Evangelho. (Cfr. EG. 25, 20). Que assume uma opção missionária “capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação” (EG, 27).

Uma Igreja que assume o seu papel de servidora da humanidade, que acredita no ser humano, e sustentada pela caridade na verdade, eleva profeticamente a sua voz para defender a vida em todas as suas formas. “Que atua com um profundo senso de responsabilidade e de discernimento, que é capaz de avaliar com objetividade e realismo sua relação com o mundo de hoje; que incentiva a participação ativa e à presença responsável, com respeito e deferência em relação às instituições, porém com a increpável consciência de que “É melhor servir a Deus que aos homens” (At. 4, 19). (Cfr. Carlo M. Martini, Le raggioni del credere).

Uma Igreja que caminha em comunhão e segue o compasso da Igreja do Brasil em sintonia com Conferência Episcopal, que respeita os percursos pastorais aprovados, especialmente as Diretrizes da Ação Evangelizadora, encarnando-as na sua própria realidade; que colabora, doando de sua pobreza, para a concretização dos projetos de formação e evangelização assumidos pelos bispos do Brasil.

Uma Igreja diocesana consciente de sua história, da singularidade e da riqueza cultural sertaneja que confere um traço específico à sua identidade e missão. Que valoriza e promove as comunidades de base e as diversas formas de vida comunitária como espaços de “viva comunhão, participação e missão” (EG. 28); que acredita na construção de uma Igreja “comunidade de comunidades” que responde à urgência de uma sincera e profunda conversão pastoral. Uma Igreja que respeita e acolhe a riqueza da religiosidade popular em suas diversas manifestações “como um tesouro precioso” (Bento XVI), evangelizando-as quando necessário, promovendo-as como elemento decisivo na experiência de inculturação da fé.

Uma Igreja permeada pela presença da Virgem Maria, sua Mãe e modelo; que contempla na Mãe do Salvador a imagem da perfeição de seu mistério e o tipo do dinamismo de sua missão, consciente de que, como nos afirma o Papa Francisco, “Há um estilo mariano na atividade evangelizadora… Porque sempre que olhamos para Maria voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do afeto”. (EG 288).

Reafirmo o meu convite a caminharmos juntos, construindo a partir destas indicações o nosso sonho de Igreja, que tomará forma e corpo no chão concreto no qual pisamos, com a capacidade de conjugar de forma harmônica a multiforme riqueza de dons que nos foram concedidos para o bem e a edificação desta porção do Povo de Deus que forma nossa Igreja Diocesana. Para que possamos caminhar com segurança, devemos cultivar uma atenção permanente para que qualquer que sejam os passos pequenos ou grandes que dermos, que sejam dados unicamente na direção que o Espirito nos inspirar e sugerir.

À Virgem Mãe da Piedade, Mãe de Deus e da Igreja consagro hoje o meu ministério de pastor e toda a Igreja Particular de Cajazeiras:

Virgem Maria, Mãe da Piedade, Mãe de Deus e da Igreja consagro-te o meu ministério pastoral, os sacerdotes, religiosos e religiosas, os fiéis leigos e todos aqueles que se comprometem com a missão evangelizadora desta Diocese. Suplico-te humildemente o teu auxílio materno e a graça da perseverança para que com o clero, os religiosos, e os leigos, juntos desempenhemos com solicitude a missão que nos foi confiada, e, ao final deste caminho que hoje começamos a percorrer, possamos cantar um hino de ação de graças e de louvor ao Deus onipotente que olhou com ternura e misericórdia para a pequenez do seu povo, fazendo grandes coisas por esta porção da sua Igreja que está em Cajazeiras.  Amém.

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