Cajazeiras-PB, 17/10/2017

Crescimento ou Desenvolvimento?

São sentidas e visíveis as mudanças por que vem passando a cidade de Cajazeiras nos últimos anos. Seja pelo surgimento de novos estabelecimentos comerciais e educacionais, seja pela abertura de novas ruas, pela intensificação no fluxo do trânsito ou pela oferta crescente no setor de prestação de serviços. Ao visitante pouco assíduo (meu caso), essas transformações causam maior impacto ainda e, por que não, alegria. É sempre bom percebermos que, “os ventos” que ora ensaiam levar prosperidade aos mais distantes rincões do interior brasileiro, também incluem nossa cidade natal no seu roteiro. Contudo, gostaria de levar aos cajazeirenses uma reflexão: Estaria Cajazeiras se desenvolvendo ou simplesmente crescendo?

O crescimento de uma cidade é um aspecto visivelmente observável e pode ser constatado pela expansão do perímetro urbano, intensidade do trânsito, verticalização das construções, abertura de novas casas comerciais, hotéis, etc; Já a constatação de desenvolvimento requer mais atenção e sensibilidade por parte do observador, pois os indicadores não são tão visíveis como no primeiro caso e uma análise mais acurada é exigida. É necessário verificar indícios que apontem ou denunciem os indicadores  de qualidade de vida de sua população. Nesse caso os olhos do observador devem atentar para a existência de oferta de serviços públicos essenciais como: coleta regular de lixo, aterros sanitários, água e esgotos tratados, postos de saúde, segurança pública, e se o incremento desses serviços segue o mesmo ritmo de crescimento populacional.  A existência de um plano diretor que discipline a expansão física urbana também deve ser observada, uma vez que todo e qualquer projeto urbano moderno precisa levar em consideração as limitações do meio natural, e considerar em suas análises, a inclusão de parques, praças e áreas verdes, pois, assim não sendo, sua insustentabilidade de alguma forma se revelará no médio e no longo prazo.

É sabido que na segunda metade do século passado, muitas cidades brasileiras passaram pela experiência da industrialização e do crescimento emergente, sem, contudo, estarem preparadas para atender a demanda, também crescente, pelos serviços públicos básicos e, pior, sem qualquer preocupação com o meio ambiente.  Na verdade são elas – as cidades – vítimas de um modelo socioeconômico que enfatiza o lucro imediato e a produção, voltadas para atender necessidades infinitas, em detrimento do espaço e dos recursos naturais limitados, em muitos casos, não renováveis.  Como um dos resultados deste processo, a sustentabilidade urbana tem estado sob constante pressão e as conseqüências todos nós conhecemos: ocupação desordenada, degradação ambiental, proliferação de favelas, altos índices de criminalidade, alto déficit de moradia e de serviços públicos.

Para que uma cidade realmente se desenvolva, seu crescimento precisa ser sustentado, o que exige investimento em educação, saneamento básico, infra-estrutura viária, contratação de profissionais da área de gestão ambiental e um plano diretor que respeite as limitações do entorno. Deve-se também levar em consideração a fragilidade do meio onde se encontra inserido todo o conjunto, pois, a expansão urbana não pode ter como legado a falta de sensibilidade, a degradação ambiental, ou a dívida ecológica. Nesse processo, torna-se fundamental a participação da sociedade civil organizada, e da imprensa livre como interlocutores da opinião popular. Uma administração pública moderna, política e ecologicamente correta, deve ser moldada dentro dos novos parâmetros de gestão de políticas ambientais, considerando o meio natural e o elemento humano como os atores principais, para onde e para quem todos os holofotes devem estar voltados, objetivando a melhoria da qualidade de vida. O atingimento dessas metas, mesmo de forma parcial, em muito minimiza os inevitáveis impactos decorrentes das crescentes demandas por recursos naturais, conseqüência de toda e qualquer intervenção expansionista urbana.

Como cidade referência em educação, Cajazeiras é personagem importante nesse processo e em hipótese alguma poderá se furtar às diretrizes da nova ordem e conceito de crescimento urbano sustentável. Sob essa perspectiva, o papel de seus administradores, assim como o exercício da cidadania dos seus habitantes, se reveste de maior responsabilidade. O desenvolvimento de uma cidade pode ser medido pela qualidade de vida que o gestor proporciona ao seu povo, mas também pelo grau de conscientização dos cidadãos relativo a essa causa, não só cobrando, mas também colaborando com as práticas sócio ambientais e ecologicamente corretas.  Nada mais coerente do que a “cidade que ensinou a Paraíba a ler”, passe a ser vista também como a cidade referência em planejamento urbano e gestão ambiental, qualidades que combinam com a trajetória cultural da cidade. Ocorrendo de forma sustentada, o crescimento inevitavelmente resultará em desenvolvimento, objetivo último de uma sociedade.

SOBRE DERMIVAL MOREIRA

Bancário aposentado e graduado em Geografia. Reside em Cuiabá-MT.

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