Cajazeiras-PB, 22/10/2017

Sim, eu como banana

banana

 

Sempre soube que a fruta, rica em potássio, é fundamental para a perfeita oxigenação do cérebro. Portanto, ativa a memória, faz bem lembrar e determina as construções dos nossos níveis de percepção. Foi sempre por isso que achei importante comer banana. Aprendi e degluti, tudo ao mesmo tempo.

 

Entre uma refeição e outra do dia, por exemplo, a fruta resolve o problema da saciedade e, ainda, promove um certo conforto estético. A pele fica uma beleza de elasticidade.

 

Até aqui, tudo bem, querido leitor, querida leitora, estamos embananados. A danada é boa para se pensar. De tanto ser assim, acabou me fazendo lembrar o que eu não gostaria muito.

 

Estávamos eu e minhas ansiedades ambulantes pela avenida Engenheiro Carlos Pires de Sá. Exatamente era a vez da banana, umas duas horas antes do almoço. Vi uma banca de frutas, legumes, verduras e outras coisas. Aquilo foi me tirando do transe urbano e me transportando para uma outra cena hipnótica. Eu só queria uma banana. Uma, somente.

 

Olhei outras frutas. Vi uma maçã, pobrezinha, tão feinha, que desisti. Poderia ser uma graviola gorda, mas o sacrifício de descascar, ali, não daria tempo. A laranja também me impunha tal esforço. Meu entrave era o tempo que, a banana, tranquilamente, resolveria. Fui.

 

O dono da banca estava com aquele traje suado característico: uma camisa branca de algodão fininha e desabotoada nas três primeiras casas. Exalando um som seco e árido, como se nunca tivesse sido abraçado na sua existência, perguntou o que eu queria. Eu demorei a responder, de tão assustada com ele, de repente. Em poucos segundos, entretanto, o olho dele mirou o meu: uma coisa esverdeada, ensandecida pelo calor. Era uma situação de cansaço, eu quero acreditar.

 

O homem disfarçava que disfarçava a timidez, tentando arrumar uns jerimuns que se arredondavam pela mesa. Pegou uns caixotes e começou a empilhá-los, batendo, batendo, numa velocidade que me estarrecia. Eu deveria ter me tocado.

 

Tomei fôlego e perguntei o preço da dúzia. Ele disse que custava dois reais. Naquela manhã, eu ainda ia passar num punhado de lugares. Como era que eu ia, desfilando, com aquele saco? Não daria certo. Uma Carmem Miranda esvanecida, sem grau de reação.

 

Criei coragem do nada, aliás, deve ter brotado dos tomates ou de pequenas coroas de abacaxi. Enquanto eu avaliava toda a conjuntura bananal, ele mordiscava um pedaço de algo parecidíssimo com repolho. Enquanto eu o observava com um instinto cinematográfico, que nem suspeitava entrar nesta crônica, ele resmungava em dimensões tão particulares, mas tão particulares, que só mesmo o bigode dele conseguia ouvir.

 

Eu disse: “Mas eu só quero uma…”

 

Armado de uma expressão de orangotango esquizofrênico que jamais soube o que seria um beijo, ele começou a arrumar uma pilha de beterrabas. Disse que eu podia levar. Mentira. Pense numa concessão absurda. Aquilo não era ele. Era, talvez, o Pequeno Polegar, no ombro, dizendo que ele deixasse de ser sovina. O anjo da guarda, coitado, exausto, também soprava qualquer mensagem de equilíbrio.

 

Descasquei a banana pacientemente, parecendo que estava despindo minha consciência, lugarzinho tortuoso. Na primeira dentada, vi quando ele falou, ou seja, bradou com a mulher que varria o terreiro. O idioma dele é outro, semelhante ao dos aborígenes australianos, especialmente dos que nunca conheceram a sociabilidade. Ou pode ser um dialeto, próximo em semitons ao dos apaches em pleno ataque aos colonizadores. Ele não tem culpa.

 

Na segunda dentada da banana, vi quando ele alisava uma melancia. Não achei ridículo nem piegas nem grotesco. Achei normal para o que eu estava vivendo naquele ensaio. Na terceira, fui tirando minha carteira, disposta a pagar o quanto fosse pedido, sem choramingar. Na quarta e última dentada, mastiguei de leve, engoli com força. Perguntei bem cínica, como se fosse uma imperatriz de morro: “Quanto custa?” Imediatamente, num piscar, tive a impressão de que ele só estava esperando aquilo. Com um desvio de olhar, disse, mexendo abruptamente em papéis que se espalhavam por entre as cenouras: “Dez centavos.”

 

Paguei com duas moedas de cinco, para ele ficar ainda mais feliz. Ao dizer “Obrigada!”, ouvi um roído estranho das cordas vocais dele, devolvendo o meu agradecimento, como se estivesse abrindo o chão.

 

Bem pensativa, fui andando, até que me fizeram pensar nos princípios cartesianos de ser e estar. De dez em dez centavos, chega-se a uma dúzia, chega-se a um cacho, chega-se a uma penca, chega-se a um caminhão carregado, chega-se a uma frota, chega-se a uma plantação. Quem sabe, chega-se, à prosperidade.

 

PUBLICADO NA REVISTA OBA! (2000)

SOBRE CRISTINA MOURA

CRISTINA MOURA
Jornalista e professora. Reside em Vitória-ES.

COMENTÁRIOS

  1. carla giane

    Grata surpresa!
    Cristiano acabou por levar e trazer, em minutos, meus pensamentos à Cajazeiras dos 1990’s.
    Muito feliz por reencontrá-los – irmãos jornalistas de indefinível talento, e mais ainda por desfrutar dos textos da minha amiga Cristina Moura (lá se vão mais de vinte anos!!), estava com saudades.

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