[CLEUDIMAR FERREIRA] A Arte Beradeira na visão de Telma Cartaxo


Telma Rolim Cartaxo foi nas décadas de 70 e 80, épocas de maior concentração política no campo cultural em Cajazeiras, a principal porta-voz das artes visuais no Alto Sertão paraibano. Esse legado ela adquiriu depois de ter acumulado larga experiência nessa área, desde o tempo de sua militância artística nas artes visuais da capital paulista. Com a sua volta ao sertão da Paraíba nos anos 70, teve sua imagem exposta ao público da terra que o acolheu – Cajazeiras, através da contundente participação que teve, durante a realização em 1978, do 1º Salão Oficial de Arte Contemporâneo do Sertão, e depois, com mais ênfase, través do seu exercício na coordenadoria de Artes Plásticas no antigo NEC/UFPB/Campus – Cajazeiras, onde desenvolveu um trabalho voltado a procura de caça talentos e de incentivo à produção das artes visuais, no hoje instinto ateliê de artes, Instalado na sua época pela UFPB no antigo prédio da FAFIC, na Avenida Padre Rolim.

Dos esforços feitos por ela no Atelier do NEC/UFPB, foi possível ser realizadas várias exposições coletivas e um intercâmbio de artes entre as cidades de Cajazeiras e Campina Grande. Dias antes de abrir entre 18 e 25 de novembro de 81, na Rainha da Borborema, a primeira coletiva dos artistas cajazeirenses no Museu de Artes da antiga FURNE, Telma falou nessa entrevista abaixo ao Jornal A União, do dia 15 de novembro de 1981, página 03; do seu trabalho, de sua arte e da arte brasileira especificamente. Falou também das dificuldades, das conquistas, dos desafios e do modelo de produção das artes visuais vigente no interior paraibano. Destacou ainda, os estilos, as temáticas e as técnicas utilizados pelos artistas sertanejos para conceber seus trabalhos artísticos, ou seja, como ela mesmo batizou, os desdobramentos que os artistas do interior tinham que fazer, principalmente nessas duas décadas, para realizar sua Arte Beradeira.

Arte Beradeira contra a Arte Brasileira

– Telma, quem é você?

– Telma: O que sei de mim é que sou uma pessoa que se busca, se procura e que tenta, a cada dia, ser. Como artista, sou uma artista em formação.

– É difícil trabalhar com Arte no Sertão?

– Telma: Trabalhar com Arte é fazer apostolado artístico. Acredite, tenho suado sangue para prosseguir. Claro que ideias não nos faltam e qu estamos batalhando um espaço. O problema é outro. Sabe, juntando a carência financeira da maioria dos talentos sertanejos, mais falta de verba e de apoio, a tarefa torna-se dificílima. O que salva é que os artistas e os amigos são sóbrios com nossa lutar e como o trabalho segura minha cabeça a gente caminha. Faço questão de frisar que o meu compromisso, bem como do NEC – Campus, não é apenas com os talentos sertanejos, mas com todos os novos talentos paraibanos. Daí o nosso espaço está aberto para todos.

– Você gosta do seu trabalho?

– Telma: Gosto do meu trabalho e assumo todos os altos e baixos. Porque todos os meus trabalhos são resultado de um parto. É como ter um filho, entende? E de filho a gente sempre gosta. E, adoro meu trabalho, apesar de, por ser cultural, está em último plano aqui e em 3º em todo Brasil.

– Sobre qual aspecto você ver a importância do seu trabalho?

– Telma: A importância de um trabalho não está na liderança desse trabalho, mas na sintonia porque você sabe que é um trabalho de equipe, em função de um fato maior. Quem não pensa assim, tem lantejoulas na cabeça.

– Alguma regra de criação deve ser imposta ao artista?

– Telma: É óbvio eu nenhuma regre de conduta pode ser imposta a criação artística. O artista deve se deixar guiar por sua imaginação e sensibilidade. O momento de criar é espontâneo. Sabe, Arte é como o amor: a partir do momento que passar a ser racional, deixará de existir como sentimento.

– Nas Artes Plásticas, você acha necessário abrir mais frentes as outras manifestações artísticas?

– Telma: Sem dúvida. Já não se concebe uma limitação de só se expor obras em óleo por exemplo, quando a arte brasileira anda repleta de alterações e novas tendências de impacto visual e temático.

– Em termos de escola, como anda a Arte Brasileira?

– Telma: A quantas anda a Arte Brasileira em temos de escola não dá pra dizer. O que sei é que existe um monte de influencias, raízes, sobre nossa civilização e formação. A meu ver, a nossa Arte é uma arte que difere da região a região. Por exemplo, aqui no sertão o que predomina é o estilo rural. Em palavras mais sertaneja: Arte Beradeira, onde o que conta é o talento. O mais é fazer do nada o tudo. Daí ninguém pode cobrar do artista sertanejo uma visão maior. É bom lembrar que aqui é terra mesmo, onde os talentos são autodidata ao modo de cada um. Em outras palavras, são artistas em formação que estão se descobrindo e da raiz, estão se buscando, se processando até acontece um mergulho maio.

–  A imprensa divulga a altura as artes de modo geral?

– Telma: Não, não divulga. Principalmente artes plásticas que é uma arte que ainda precisa fazer a cabeça das pessoas, como é o caso do Sertão. O que a imprensa divulga mesmo pra valer é política e crime.

– O que você acha da política?

– Telma: Não entendo de política.

– Fora a arte, o que mais preocupa você?

– Telma: A preservação da natureza, o desemprego, a inflação. As espécies estão cada vez mais raras. O desemprego e o alto custo de vida espalham miséria e fome de ponta a ponta. A situação em todo o mundo é crítica. Aqui no sertão, não obstante as frentes de emergências, o sertanejo está morrendo de fome.

– E o amor?

– Telma: O amor é a mola da vida. É o único que constrói realmente.

1 Comment

  1. Hevandro Rolim
    24/02/2017

    Olá Christiano! Por onde anda Telma Cartaxo Rolim hoje? Sugiro tópico sobre a difícil arte de fazer arte na cidade que já foi chamada de “Berço da Cultura Paraibana”…”Cidade que ensinou a Paraíba a ler”…
    Em tempo: Por onde anda o arquivo histórico e os objetos pessoais que pertenceram ao Padre Ignácio de Souza Rolim que há décadas foi exibido nas instalações da Biblioteca Pública Municipal de Cajazeiras? grande abraço. Parabéns pelas ótimas matérias aqui publicadas.
    Hevandro Rolim

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