Cajazeiras-PB, 22/11/2017
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Cajazeirense Ubiratan de Assis brilha na “Cantata pra Alagamar”

BIRA-CANTATA

A obra lítero-musical Cantata pra Alagamar é fruto da parceria entre o maestro José Alberto Kaplan e o escritor W.J.Solha, inspirado na luta dos agricultores ameaçados de expulsão das terras de Alagamar, entre os municípios de Itabaiana e Salgado de São Félix(PB), no final de década de 70.
Gravada em vinil pela Marcus Pereira, a Cantata foi realizada numa época de tensão política e perseguições da ditadura militar. Para o sucesso das suas apresentações, o projeto contou com um grupo de destemidos cantores/coralistas integrantes da camerata, que enfrentou as possíveis consequências da participação num trabalho considerado subversivo pelo regime. Como estratégia diante da repressão, as apresentações foram feitas em igrejas e missas realizadas em ambientes comunitários, já que era praticamente impossível conseguir pauta nos teatros, devido à censura. Apesar do cerceamento, a obra conquistou ampla repercussão, tendo entre seus grandes momentos, as apresentações especiais durante a visita ao Brasil de Perez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz, em 1979, e do Papa João Paulo II, em 1980.
A ideia da Cantata, segundo o autor, surgiu da sua amizade com o arcebispo da Paraíba, Dom José Maria Pires, sensibilizado com a problemática vivida pelos agricultores de Alagamar. Mesmo recém premiado com o primeiro lugar no I Concurso Brasileiro de Música Erudita para Piano ou Violão organizado, pelo MEC/Funarte e Editora Vitale, em 1979, Kaplan passava por uma espécie de crise existencial, que só foi debelada a partir da amizade com o arcebispo, somando-se à leitura dos textos de Brecht e finalmente com a criação da obra. Achava que tudo o que estava fazendo era supérfluo e sem sentido totalmente dispensável numa região onde a miséria, a mortalidade infantil, a doença e o analfabetismo atingiam índices assustadores. A dura realidade defrontada diariamente fazia com que me sentisse um ente socialmente inútil, relata o maestro no livro de memórias Antes Que Me Esqueça(m), em 1999.
Depois da leitura dos textos de Brecht, chegou à conclusão de que aqueles descontentes consigo mesmos são ungidos a usar os instrumentos de sua arte para tornar mais lúcida a ação da massa dos deserdados contra a ignorância e a injustiça social. Partiu então para prática: O primeiro passo seria a redação de um texto didático e eminentemente popular, claro e verdadeiro. Essa missão foi concedida aoescritor e artista plástico W.J.Solha, romancista, detentor de vários prêmios em importantes concursos literários nacionais.
Em relação ao texto, a ideia inicial era escrever em gênero de cordel, mas, de acordo com Solha, ao tomar contato com a os detalhes do ocorrido, percebeu que a monotonia breve e constante dos versos de sete sílabas do cordel não seriam capazes de exprimir toda a gama de nuanças psicológicas e de ação que a história de Alagamar apresentava. Lançou mão, então, de outras formas da poética popular como o martelo agalopado e a gemedeira e, em uma semana, o texto ficou pronto. A qualidade do trabalho produzido por Solha, segundo Kaplan, foi além das expectativas: “Tanto, que achei que a música, por melhor que fosse, só iria estragá-lo.”
Solha, entretanto, advertiu que o amigo deveria botar a música de qualquer jeito. Para cumprir sua parte, Kaplan ficou recluso durante um mês e meio, trabalhando sem parar, criando um material musical todo baseado em constantes rítmicas e melódicas da região, utilizando-se de elementos do folclore nordestino, como baião, xaxado e cantigas de roda.
Na execução do espetáculo, além do grupo de cantores dispostos a enfrentar o desafio, foi necessário arregimentar um narrador e um jogral. O ator e diretor teatral Fernando Teixeira foi o escolhido para a narração, enquanto o jogral foi composto por três jovens atores que vinham se destacando nos palcos da cidade: Ubiratan Bira de Assis, Ronald Buda Lira e João Costa. A estreia da Cantata pra Alagamar ocorreu no dia 17 de junho de 1979, na Capela da Igreja de São Francisco, em João Pessoa, Paraíba.
Quanto à gravação, feita num modesto estúdio do conservatório Pernambucano de Música, segundo Kaplan, foi prejudicada pela carência de equipamentos (o estúdio só possuía quatro canais). E mesmo com as dificuldades impostas pela censura, o disco acabou sendo lançado alguns meses depois. O trabalho teve grande repercussão, inclusive com novas interpretações feitas por outros corais no país, a exemplo do Madrigal Veredas e o Luther King de São Paulo.
A reverência à força do povo, aliada à mensagem de amor e de esperança, em síntese, como escreveu D. Helder Câmara em texto da contracapa do LP, justifica por quê a Cantata Pra Alagamar merece ser ouvida por todas as pessoas de boa vontade, que amam a verdade e o belo e sonham com um mundo mais respirável, mais justo e mais humano.

A CANTATA

  • I. Introdução
  • II. O Estatuto da Terra
  • III. Canção da Não-Violência I
  • IV. Recitativo I
  • V. Canção do Rio que Alaga o Mar
  • VI. Recitativo II
  • VII. Nosso Irmão da Segurança I
  • VIII. Recitativo III
  • IX. Recitativo IV
  • X. Canaviais Feito Exércitos Fardados
  • XI. Nosso Irmão da Segurança II
  • XII. Querem que a Gente Guerreie
  • XIII. Canção da Não-Violência II
  • XIV. Ó Minha Gente I
  • XV. Ó Minha Gente II
  • XVI. Vamos Arrochar as Mãos
  • XVII. A Usina
  • XVIII. O Sindicato I
  • XIX. O Sindicato II
  • XX. O Sindicato III
  • XXI. Hino de Alagamar I
  • XXII. Canto Final.

Música: José Alberto Kaplan.
Texto : Waldemar José Solha.

Solistas: Vladimir Silva e Fátima França
Narradores: Fernando Teixeira, Ubiratan de Assis e Bia Cagliani.
Flauta/Piccolo: Renan Felipe Rezende.
Cravo/Órgão: José Henrique Martins.
Violinos:Renata Simões e Juliana Couto.
Viola:Anne Katerinne Leite.
Violoncello:Andrêyna Dinoá.
Contrabaixo: Victor Mesquita.
Percussão: Dennis Bulhões, Francisco Xavier, Ebenézer Vaz, Glauco Andreza e Germana Cunha.
Coro de Câmara Villa-Lobos
Sopranos: Carmen Julieta Gomes, Da Paz Teixeira, Eliza Leão, Fátima França, Flávia Michele da Silva, Maria Cândida Lima, Valeska Campos e Vânia Melo de Melo.
Contraltos: Elizabeth Braga, Irece Ferreira, Luciana Costa, Márcia Paz, Maria das Dores Souza, Maria José França, Marta Arcela, Selma Garrido e Vilma Lima.
Tenores: Ademir França, Adenilson França, Ailton França, Alessandro Delmiro e Almir França.
Baixos: Gilson Santos, Osmar Santos, Ottoni Melo, Paulo Adriano dos Santos, Pedro Paulo da Costa, Rafael Dias e Werisson Douglas.
Direção Musical e Regência: Carlos Anísio.

O MAESTRO JOSÉ ALBERTO KAPLAN
José Alberto Kaplan nasceu em Rosário, Argentina, em 16 de julho de 1935 e faleceu em João Pessoa, em 29 de junho de 2009. Pianista, professor, compositor e regente, recebeu diversos prêmios, entre os quais o Diploma de Honra no VI Concurso Internacional de Piano Maria Canals (Barcelona, Espanha, 1960); o 2.º lugar no Concurso Nacional de Obras Corais (Funarte, Rio de Janeiro-RJ, 1979), com a obra Vilancicos, para Coro Infantil; e o 1.º Prêmio no I Concurso Brasileiro de Composição de Música Erudita (Funarte, Rio de Janeiro-RJ, 1978), com a Suíte Mirim, para piano.
Como pianista, atuou nas principais cidades da Argentina, Estados Unidos e do Brasil. Em 1972 formou com o pianista Gerardo Parente o Duo de Piano a 4 mãos Kaplan-Parente, cujo objetivo principal foi a divulgação do repertório de autores brasileiros para esse tipo específico de formação camerística. O Duo gravou para o selo Marcus Pereira (São Paulo) o disco Piano Brasileiro a Quatro Mãos, considerado pela crítica especializada como um dos 10 melhores lançados no País em 1977.
Foi Regente Titular da Orquestra de Câmara do Estado da Paraíba (1974-1977), da Camerata Universitária da UFPB (1978-1980) e da Orquestra Sinfônica do Estado (1986). Também atuou como Regente do Coral Universitário Gazzi de Sá de 1983 a 1985. Em 1995 lançou o CD Kaplan – Obras Escolhidas com uma seleção de oito de suas peças. Em 2003 lançou, com o patrocínio do Programa de Incentivo à Cultura do Estado – Pró-Cult, o CD Obras para Piano de José Alberto Kaplan.
Participou, como convidado, das Bienais de Música Brasileira Contemporânea realizadas no Rio de Janeiro entre os anos de 1985 a 2005. Em 1986, o seu livro Teoria da Aprendizagem Pianística – Uma Abordagem Psicológica foi lançado pela Schott/Movimento (Curitiba/Porto Alegre). Como professor de Piano e Harmonia, foi convidado a participar dos mais importantes Festivais realizados no País. Também ministrou Cursos e Masterclasses em diversas cidades a convite de Universidades e prestigiosas entidades musicais. Idealizador e Diretor Artístico do “Festival de Artes” realizado na cidade de Areia (PB) nos anos de 1976 e 1977. A Câmaras Municipais das cidades de João Pessoa e de Areia e a Assembleia Legislativa do Estado outorgaram-lhe títulos de cidadania nos anos de 1975, 1976 e 1995, respectivamente.
Em 1995, o Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba outorgou-lhe a Comenda “José Maria dosSantos” pelos serviços prestados ao movimento cultural do Estado. O Conselho Estadual de Cultura concedeu-lhe, em 1998, o “Diploma de Honra ao Mérito” pelos relevantes serviços prestados à cultura paraibana. Foi professor do Departamento de Música da Universidade Federal da Paraíba de 1964 a 1996, quando se aposentou. A UFPB, por ocasião das solenidades de comemoração do seu cinquentenário, concedeu a José Alberto Kaplan o título de Professor Emérito e a Comenda Sapientia Aedificat da UFPB, em 2 de dezembro de 2005.

 

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SOBRE Christiano Moura

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