Cajazeiras-PB, 19/10/2017

As novas estratégias para a conservação da Caatinga

Conhecer é o primeiro passo para amar e, por consequência, conservar. Partindo dessa premissa, a Associação Caatinga convidou um grupo de formadores de opinião para um fim de semana de imersão na Reserva Natural da Serra das Almas (RNSA), que fica a 50Km da sede de Crateús, no Sertão dos Inhamuns, com um pezinho no Estado vizinho do Piauí.

Quem visita a Serra das Almas com direito a um batismo catingueiro na nascente do Riacho Melancias sai de lá com a certeza de que é possível conviver com a estiagem prolongada de forma sustentável. Por sinal, preservar, identificar, mapear nascentes degradadas, propor a estratégia de recuperação, produzir mudas nativas, restaurar fisicamente e cercar essas áreas, conforme o coordenador geral da Associação, Rodrigo Castro, é uma ação consolidada, com mais de 30 nascentes já recuperadas na região.

O gerente da RNSA, Thiago Roberto, destaca que, dentro das possibilidades de uso daquela Unidade de Conservação de Proteção Integral, o principal objetivo é a sensibilização das pessoas para a manutenção da biodiversidade, “no sentido de tocar corações e mentes para elas entenderem que sem essa mata em pé a humanidade está cada vez mais comprometida”.

Dados assustadores

Ele destaca que os dados oficiais da Caatinga são assustadores, considerando que o ativo florestal (mata em pé) é menos de 50% e menos de 10% disso está em áreas protegidas. No Nordeste, 30% da matriz energética no sertão vem da madeira e do carvão e 90% é ilegal. “Com uma pressão antrópica cada vez maior nessas áreas de mata, o que fazer para conservar? Criar áreas protegidas. Uma riqueza de fauna e flora, manutenção dos serviços ambientais, que alimenta o turismo, garante segurança energética, mas é preciso investir no manejo florestal e mostrar a relação direta com a preservação dos recursos hídricos”, afirma.

Rodrigo destaca que a Reserva tem mais de 7 milhões de árvores em pouco mais de seis mil hectares, recém-aumentados com a aquisição da Fazenda Gameleira. Ele destaca que a regulação do ciclo do carbono é um serviço ecossistêmico fundamental, assim como o combate à erosão, que não deixa a desertificação avançar. “Temos quatro nascentes, que são para a fauna e flora locais, mas que fazem parte da sub-bacia do Rio Poty. Na Caatinga, 8% do território é protegido por UCs como essa, que é de proteção integral, ou seja, não permite nenhum tipo de manejo ou exploração direta dos recursos naturais. Nós temos uma área susceptível à desertificação com mais de 60% já desmatados, uma área que sofre muito com o aquecimento global”, destaca.

Envolvimento

Segundo Rodrigo, turismo, Educação Ambiental, proteção da biodiversidade, incentivo à pesquisa e serviços ecossistêmicos na Serra das Almas são as funções clássicas das UCs de Proteção Integral. “Só que a gente percebeu, nesses 18 anos, que isso não era suficiente. Era preciso trabalhar uma vertente de integração com a sociedade. Como trazer as comunidades para o diálogo, para conhecer e compreender essa iniciativa, como isso afeta o dia a dia do sertanejo dessas 28 comunidades (3.300 famílias) que convivem conosco no entorno imediato?”, questiona. Foi daí que surgiram, de 2004 em diante, as primeiras iniciativas de interação, desde as ações de Educação Ambiental, de geração de renda, de tecnologias sustentáveis, visitação à reserva. “O elo mais importante é conectar com os vizinhos porque essa reserva é uma ilha de biodiversidade. Se ela não estiver envolvida num contexto de ações mais preservacionistas na agricultura, de redução do corte, das queimadas, nas atividades domésticas, vai ficar cada vez mais isolada e menos irá cumprir a sua função de enfrentar o processo de degradação”.

Água

Neste sentido, a Associação Catinga trabalha em diversas frentes. Na conservação, o primeiro objetivo são as ações na Serra das Almas e o fomento à criação de outras RPPNs. “Quando nó criamos a Serra das Almas, em 2000, existiam no Ceará nove reservas, hoje são 33, que formam uma rede e 2/3 dessas unidades estão na Caatinga. Só em Crateús são quatro”, informa. Além do fomento à criação de RPPNs, há um setor na Associação Caatinga ocupado com a preservação das nascentes que, com parceiros, vem ajudando a melhorar a segurança hídrica. “Uma coisa são os projetos hidráulicos emergenciais para garantir o abastecimento, mas é preciso investir em recuperação e conservação daquele potencial hídrico perdido porque as nascentes secaram pelo desmatamento”, completa.

No Programa de Tecnologias Sustentáveis, são apoiadas 108 famílias de meliponicultores (produção de mel de abelhas nativas sem ferrão). Outro exemplo é o do coletores de sementes capacitados, que alimentam a produção de mudas nativas que vão para as ações de restauração florestal. Em Crateús 11 comunidades rurais têm coleta seletiva semanal, uma parceria com a Prefeitura. O seco é coletado toda quinta-feira e levado à cooperativa de catadores que têm um galpão na entrada da cidade, que é vendido para Fortaleza. O sonho, segundo Rodrigo, é atender todas as localidades rurais do Município. Para a parte molhada foram criadas 19 composteiras comunitárias para as hortas deles e para comercialização.

Projetos

Resumindo, a Associação Caatinga está desenvolvendo quatro projetos: Segurança Hídrica (proteção de nascentes, uso racional da água, implantação de cisternas de placa e implantação do bioágua – reúso de água doméstica para irrigar o quinta produtivo); Água Preservada; Conservação da Serra das Almas; Gameleira (nova fazenda que está sendo integrada, de 5.845 para 6.299 hectares); e um programa, o Tatu-Bola (que existe desde o ano passado, com patrocínio de quatro anos da Fundação Boticário, mas estratégia de conservação da espécie, o plano da ação nacional (PAN) é de cinco anos com uma visão de dez anos para reduzir o risco de extinção da espécie no Bioma Caatinga, com foco no Ceará e Piauí.

“Estamos procurando outras parcerias para dar continuidade. O Programa Tatu-Bola, que surgiu em 2012, quando vimos a oportunidade da Copa de 2014 de adoção de uma espécie nativa atrelada a uma ação de conservação, terá, até o fim de outubro, a campanha “Eu Protejo o Tatu-Bola”, na plataforma de crowdfunding, de financiamento colaborativo, via Kickante, para aproximar as pessoas que queiram apoiar porque esse projeto tem que chegar no mínimo até 2023. No momento estamos mapeando áreas de ocorrência, atualizando a situação dele no Estado do Piauí, buscando áreas no Canyon do Rio Poty para propor a criação de RPPNs e Unidades de Conservação públicas. A principal estratégia é criar áreas preservadas em áreas de ocorrência para tentar reverter o processo de colapso da espécie”.

tatu-bola

SOBRE Christiano Moura

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