Cajazeiras-PB, 21/11/2017
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Agricultor sai da roça para conquistar diploma de agrônomo na UFC

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A 103 quilômetros de Fortaleza, no município de Pentecoste, José de Paula Firmiano de Sousa, agricultor e pai de oito filhos, resolveu mudar o destino da família. “Zé Alfredo”, como é conhecido pelos amigos, iniciou o trabalho na roça ainda criança, aos 7 anos, plantando milho, feijão e algodão. Aos 37, entrou pela primeira vez em uma escola com uma meta: a de ingressar na universidade.

“Eu sentia necessidade de falar corretamente, até de discursar diante das pessoas. Percebia esse desejo, e as coisas foram se encaminhando para que eu conquistasse algo melhor”, conta. Por meio de supletivo, concluiu o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. Graças ao Programa de Educação em Células Cooperativas (Prece), formado por estudantes de municípios do interior do Ceará, fez o pré-vestibular. “A minha rotina era trabalhar e estudar nas horas vagas”.

Por dois anos, ele e a filha andavam cerca de 10 quilômetros até a comunidade rural de Cipó, a fim de participar dos estudos em células para ingressar na universidade. Iam a pé, de canoa, de motocicleta e, às vezes, tinham a sorte de conseguir carona até o local, que funciona em um campo aberto, no meio do Sertão do Ceará.

O esforço não foi em vão. Pai e filha passaram no vestibular e ingressaram na Universidade Federal do Ceará (UFC). Ele, no curso de Agronomia, ela em Geografia. Com a conquista, Zé Alfredo passou a morar na residência universitária, em Fortaleza.

De segunda a sexta-feira a rotina era voltada aos estudos para o curso. Além de bolsista universitário, ainda fazia trabalhos extras durante a semana. No sábado, já estava novamente em Pentecoste para trabalhar na roça e ajudar a esposa e os filhos, ainda pequenos. “Eu ficava trabalhando na agricultura rudimentar. Todas as culturas que davam certo plantar, eu plantava”. Já o domingo era destinado a ministrar aulas no Prece para ajudar companheiros da comunidade a ingressarem na faculdade, assim como ele. “Me tornei facilitador das disciplinas, é uma experiência muito boa”, comemora.

Zé Alfredo, ao longo da graduação, trabalhou com afinco para que muitos de sua região também tivessem a oportunidade de entrar na universidade. “Se o meu Ensino Fundamental e Médio não tivessem sido na dificuldade, se fossem muito fáceis, não daria tanto valor à universidade como eu dou. Eu era uma pessoa da roça, não tinha o hábito de ficar fora da minha comunidade, foi tudo muito difícil”, confessa.

Segundo o agrônomo, o mais árduo foi ter de ficar longe da família. “Morar na residência universitária e ficar distante da minha esposa e dos meus filhos foi muito complicado. Toda vez que eu saía, minha filha chorava. A gente sente muito, porque é uma mudança grande”, relata.

Desistir? – Engana-se quem pensa que as férias do agricultor e estudante eram somente lazer. Tinha de colocar em dia o que estava faltando na roça. O trabalho realmente era pesado. Por vezes, José de Paula pensou em desistir do curso – que tem duração de cinco anos – e voltar a morar e trabalhar de sol a sol em Pentecoste, mas o apoio da esposa foi fundamental para que fosse até o fim. “Eu ia abandonar os estudos, porque todos da minha casa estavam trabalhando muito, e eu precisava ajudar. A minha esposa me pediu para não fazer isso, porque a minha formatura eu estava devendo a ela. O lado positivo foi muito forte para que tudo desse certo”, conta.

A batalha valeu a pena. No fim de 2013, lá estava Zé Alfredo, aos 53 anos, entre os 404 concludentes dos centros de Ciências, de Tecnologia e de Ciências Agrárias que colaram grau na Concha Acústica da UFC. “Eu não tenho palavras para dizer o tamanho da minha felicidade em ter concluído o curso. A minha meta é continuar estudando, enquanto eu tiver condições e oportunidade. Uma coisa que me faz bem é estudar”, diz.

Trabalho atual – Agora, o agrônomo atua na administração da fazenda da Universidade, em Pentecoste, ao lado de funcionários e servidores. “Fui convidado para administrar a fazenda, onde tem fruticultura, ovino e caprino. Diretamente trabalho com 35 pessoas, e a minha função é distribuir as funções”, explica.

A partir do exemplo de Zé Alfredo, cinco dos seus filhos também foram ou são estudantes da UFC e, como ele, retornam aos fins de semana para as atividades em seu município. “Minha mãe, apesar de ser quase analfabeta, sempre me motivou, e é isso que quero passar para meus filhos”, afirma. “Com certeza eu sou um exemplo para eles e para outras pessoas da comunidade. Muitos colegas me disseram que quando pensam em desistir lembram de mim, porque eu sempre fui muito empolgado e dedicado, não faço só por fazer”, dá a dica.

Entenda o Prece – O Programa de Educação em Células Cooperativas é uma organização sem fins lucrativos, formado por estudantes de comunidades rurais e municípios do interior do Ceará que, por meio do estudo em células, ingressam na universidade e retornam para ajudar outros jovens através das associações estudantis chamadas de Escolas Populares Cooperativas (EPC’s).

Criado em 1994 na comunidade rural de Cipó, em Pentecoste, o programa já levou mais de 500 estudantes para a universidade. Existem 13 EPC’s nos municípios de Apuiarés, Paramoti, Pentecoste e Umirim.

TRIBUNA DO CEARÁ

SOBRE Christiano Moura

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