Cajazeiras-PB, 21/11/2017
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A bomba do Apolo 11, a história não concluída

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Um mistério rodeia Cajazeiras, Sertão da Paraíba, divisa com o Ceará. O povo conta um episódio que ocorreu há 35 anos, em 2 de julho de 1975, mas que se mantém sem autoria. Um atentado a bomba matou dois, mutilou outros dois e destruiu o Cine-Teatro Apolo 11. O alvo, dom Zacarias Rolim de Moura, bispo conservador da Diocese de Cajazeiras, escapou porque tinha viajado ao Recife. A história é contada, mas o mistério não se revela. Quem quis matar dom Zacarias? Auge do regime militar, a ditadura iria enfrentar, nos seis anos seguintes, a linha-dura contrária à redemocratização.

 

Cajazeiras (PB), 2 de Julho de 1975. A fase mais dura do regime militar de 1964 estava no auge. Na pacata cidade do Sertão da Paraíba, a 460 Km de João Pessoa e 600 Km do Recife, a população é sacudida por uma explosão sentida até fora da cidade. Às 21h, com as ruas desertas, a cidade havia começado a adormecer. Os moradores do centro correm para o local do impacto: o Cine-Teatro Apolo 11, fundado pelo bispo dom Zacarias Rolim de Moura, à época com 60 anos, um fanático por cinema e frequentador assíduo das sessões. O cenário era incomum e desolador para Cajazeiras: as poltronas destroçadas e quatro homens jogados ao chão. O soldado Altino Soares, o Didi, 43, com as pernas amputadas. O ex-recruta do Tiro de Guerra, Manuel Conrado (Manuelzinho), 19, com uma lasca de madeira na cabeça, o seu irmão e operador de projetor Geraldo Conrado, 31, com a perna direita partida e o corpo perfurados por fragmentos, e o adolescente Geraldo Galvão, 16, do abdômen para baixo perfurado e as pernas queimadas.

 

Uma bomba explodiu no Apolo 11, 15 minutos depois do encerramento da sessão. Levados para João Pessoa, Manuelzinho morreria dois dias depois e o soldado Didi, da PMCE, nove dias depois. Dom Zacarias escapou. Naquela tarde, havia embarcado em um ônibus com destino ao Recife, onde além das atividades pastorais ia às distribuidoras alugar filmes para os cinemas da Diocese de Cajazeiras. Dom Zacarias, um bispo conservador, contraponto à Igreja progressista liderada pelo arcebispo Metropolitano, dom José Maria Pires (dom Pelé), e pelo bispo de Guarabira,dom Marcelo Carvalheira era frequentador privilegiado que tinha a sua cadeira cativa no Apolo 11. O saldo do atentado não foi maior devido ao imponderável de uma fita de má qualidade, que partiu várias vezes, encurtando a sessão em 15 minutos, e ao enredo do filme, um drama que não agradou à platéia admiradora de faroestes e filmes de aventura.

 

A quarta-feira, 2 de julho de 1975, tinha sido mais um dia comum na vida simples e bucólica de Cajazeiras, então com 40 mil habitantes. Cinema era a maior diversão e mais de 40 espectadores tinham acabado de assistir ao filme Sublime Renúncia, no Cine-Teatro Apolo 11. Uma parte saiu antes do final. A cadeira cativa de dom Zacarias Rolim de Moura estava vazia, mas debaixo dela havia uma pasta modelo 007. Na varredura final do auditório, antes do fechamento do cinema, Geraldo Galvão encontra e entrega ao soldado Didi a pasta abandonada. A explosão que sacudiu a cidade e assustou a população foi uma questão de segundos. Na curiosidade, ao abrir para saber de quem era, Didi puxa de dentro algo que imagina ser um gravador. A poucos metros, Manuelzinho grita: não mexe, é uma bomba . No susto, Didi soltou a bolsa no chão.

 

O impacto do poder explosivo da bomba-relógio arrancou-lhe as pernas e o levaria à morte, juntamente com Manuelzinho. Os dois Geraldos ficaram mutilados. O agente federal disse a mim que tinha 15 minutos ainda para ela explodir. Se ele (Didi) tivesse colocado devagarzinho no chão e se afastado, tinha evitado a morte , relata dona Francisca Soares (dona Francisquinha), 71, viúva do soldado. No dia seguinte, um avião da Força Aérea levaria oficiais do IV Exército, com sede no Recife, e o comando e investigadores da Polícia Federal e da Secretaria de Segurança Pública da Paraíba a Cajazeiras. A cidade viveu 30 dias de suspense e temor de um novo atentado.

 

Na Paraíba, nos círculos políticos e da imprensa, a versão que se espalha é a de um atentado terrorista da esquerda contra o bispo dom Zacarias Rolim de Moura. Na oposição, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) rebate, acusando ter sido um atentado da direita para incriminar a esquerda e desestabilizar a abertura política no País.

 

Um ano antes, havia assumido a Presidência da República o general de Exército Ernesto Geisel (1974/1979) sucessor do general Emílio Garrastazu Médici (1969/1974) , que pressionado pela esmagadora vitória da oposição (MDB) nas eleições de 74, propõe à nação uma distensão (abertura) lenta, gradual e segura de retorno à democracia. Uma série de atos da linha-dura e do braço clandestino do regime se sucedem para impedir a abertura política, a transferência do poder aos civis e o retorno das eleições gerais.

Ação seria da mesma safra da OAB e do Riocentro

Um encontro casual, na Prefeitura de João Pessoa, em 1986, onze anos depois do episódio, consolida os indícios de uma ação do braço armado clandestino da ditadura militar no atentado ao cine Apolo 11. O ex-vice-prefeito de Cajazeiras, Abidiel de Souza Rolim, 71, é apresentado por um amigo comum ao general Antônio Bandeira, um paraibano linha-dura e primeiro comandante das tropas do Exército que combateram a guerrilha do PCdoB no Araguaia, Sul do Pará, entre 1971 e 1974. Bandeira revela que havia conhecido Cajazeiras, ao que Abidiel responde com espanto: Um general na minha terra? Bandeira então diz que foi na época das investigações da bomba do cinema, sem dar maior detalhe.

 

Movido pela curiosidade, o dentista Abidiel Rolim afirma que prolongou o diálogo com o general, para tanto indagou se a bomba em Cajazeiras tinha alguma relação com os episódios da OAB/RJ e Riocentro. A resposta foi surpreendente: São da mesma safra , sintetizou sem acrescentar mais nada, segundo Abidiel.

 

Inquérito foi aberto pela Polícia Federal para apurar a autoria intelectual e quem colocou a bomba, e o Exército fez investigações. Os suspeitos imediatos um líder político, um padre e um gênio autodidata surgiram à cabeça da população, suspeitas nunca comprovadas. Quem teria interesse em matar dom Zacarias e conhecimento para preparar uma bomba? Os três suspeitos eram cidadãos acima de qualquer suspeita para a Igreja e o povo.

 

Deputado estadual pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), ex-líder estudantil e considerado um agitador, o advogado João Bosco Braga Barreto foi o mais ouvido pela Polícia Federal. O técnico em eletrônica Inácio Assis, admirado pela inteligência, também depôs. E o padre norte-americano e professor Francis Xavier Boyes, o Mr. Boyes, um liberal para os padrões de Cajazeiras que teria sido censurado por dom Zacarias foi incluído na relação. As suspeitas foram derrubadas nos depoimentos. Restou as de historiadores e políticos: matar um bispo conservador e atribuir à esquerda iria endurecer o regime.

No processo de abertura, uma série de bombas

A bomba do Cine-teatro Apolo 11, em Cajazeiras, Sertão da Paraíba, em 1975, foi o primeiro de uma série de episódios ocorridos ao longo dos governos dos generais Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo. Ao assumir, em 15 de março de 1974, Geisel anuncia o processo de abertura política lenta, gradual e segura . Escolhido por Geisel, Figueiredo assume, em 1979, com a missão de dar continuidade à distensão e devolver o poder aos civis.

 

A linha dura do regime e o braço clandestino da repressão deflagram, então, uma luta para inviabilizar a redemocratização com ações de violência e terrorismo. Em 1975, submetido a tortura, morre nas dependências do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), de São Paulo, órgão subordinado ao Exército, o jornalista Vladimir Herzog, da TV Cultura. Em 1976, o líder metalúrgico Manoel Fiel Filho é também encontrado morto em uma cela do DOI-Codi. Ambos militavam no PCB.

 

Em 1977, o general Geisel enfrenta o auge de uma crise com o comandante do Exército, general Sylvio Frota, um linha dura que defendia o endurecimento do regime. Geisel resolve isolar o segmento militar contrário à abertura política. Surge a versão de que o general Frota pretende ser presidente da República, gerando a suspeita de preparava um golpe para depor Geisel. Para preservar a abertura política e a sua autoridade sobre as Forças Armadas, Geisel depõe Frota em 12 de outubro.

 

Eleito, indiretamente, pelo Congresso Nacional, o ex-chefe da Casa Militar de Geisel, João Baptista Figueiredo, enfrenta três episódios que elevam a tensão no País. Uma série de ataques à bomba a bancas de revistas, em capitais, é executada, em seguida, o Brasil é sacudido pela carta-bomba na sede da OAB/RJ, que matou a secretária da entidade, Lyda Monteiro Silva, em 27 de agosto de 1980.

 

Na última ação de desespero da direita, fracassa o atentado no pavilhão do Riocentro, na noite de 30 de abril de 1981, quando ocorria um show pela passagem do Dia do Trabalhador. A bomba explode no colo do sargento do Exército, Guilherme do Rosário, quando armava o dispositivo. Ele morre na hora e fica ferido o capitão Wilson Machado. O inquérito militar acusa a esquerda radical, mas depoimentos de agentes do regime à imprensa provam a ação da direita radical contra a redemocratização.

 

Dom Zacarias Rolim de Moura, o alvo do atentado

Um bispo tipo bonachão e tranquilo, mas apoiador do golpe e alinhado com o regime militar de 1964. O líder da Diocese de Cajazeiras, dom Zacarias Rolim de Moura, um tradicionalista que permitia missa celebrada em latim tinha, também, uma visão pragmática e a preocupação com a altivez e independência da Igreja. O longo bispado caracterizou-se pela criação de condições para a autonomia financeira da Diocese, agregando um patrimônio que se constitui fonte de renda para as atividades religiosas e de ensino. Construiu dezenas de imóveis pelos 43 municípios da Diocese, que servem de renda e como morada de padres. Por 40 anos conduziu a Diocese de Cajazeiras, zelando pela disciplina, os bons costumes e a educação.

 

Dom Zacarias não era um homem intolerante, mas era de posições firmes, tanto que considerava que a Diocese deveria ter arrecadação própria, e não depender do governo. Com a arrecadação do dízimo, conseguiu construir mais de 40 casas na Diocese , lembra o padre Antônio Luiz do Nascimento, o padre Buíca, 74, que o auxiliou no Conselho da Diocese. No período militar de 64, a gestão conservadora de dom Zacarias enfrentou divergências e resistências de padres da linha progressista, seguidores da Teologia da Libertação. O conflito mais profundo ocorreu com o grupo de cinco padres italianos, oriundos de Verona, que chegaram a partir de 1974.

 

Abrindo comunidades eclesiais de base, os italianos passaram a trabalhar na organização de camponeses e sindicatos e começaram a contestar a ação pastoral de dom Zacarias e a sua autoridade, e atuar em desobediência e sem dar satisfação das ações. O confronto só acabou após dom Zacarias pedir e conseguir que a Diocese de Verona chamasse os italianos de volta.

 

Politicamente de direita e ligado à ala conservadora da Igreja Católica, dom Zacarias tinha o perfil de homem culto, com domínio do português e com conhecimento profundo do latim e de história. Fã de cinema e assíduo frequentador das sessões, o bispo fazia a seleção dos filmes em cartaz nos cines Apolo 11 e Pax. Nas viagens ao Recife, pela Igreja, aproveitava para alugar fitas nas distribuidoras.

 

Nasceu em 1914, na fazenda Malhada das Pombas, em Umari, Ceará, divisa com a Paraíba. Era neto do tenente-coronel da Guarda Nacional, Vital de Souza Rolim (1829/1915), primeiro grande chefe político e fundador do Partido Liberal em Cajazeiras, no período da Monarquia .

 

Ordenou-se em 1937, no Seminário Arquidiocesano da Paraíba, em João Pessoa, retornando a Cajazeiras como padre e diretor do Colégio Diocesano Padre Rolim. Elevado a bispo de Cajazeiras, em 1953, pelo papa Pio XII, foi fiel ao legado de educador deixado pelo fundador da cidade, padre Ignácio de Souza Rolim (1800/1899). Dom Zacarias investiu no ensino, abrindo escolas em cidades da abrangência da Diocese.

 

Fundou, também, em 1964, um mês após o golpe, a Rádio Alto Piranhas (alusão ao Rio Piranhas, que se une ao Rio do Peixe e formam o Rio Açu, no Rio Grande do Norte), e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Cajazeiras, em 1969, incorporada pela UFPB, além dos cines Pax e Apolo 11, homenagem aos astronautas norte-americanos que primeiro chegaram à Lua. Sagradobispo emérito de Cajazeiras, em 1990, pelo Papa João Paulo II, renunciou aos 76 anos. Morreu na Malhada das Pombas, em 5 de abril de 1992.

Explosão, dois mortos, feridos e… censura

Uma coincidência aconteceu naquela noite de 2 de julho de 1975. O filme em cartaz era Sublime Renúncia, com a atriz Romy Schneider em um dos principais papéis, que não agradou à maioria. Para piorar a insatisfação, o rolo de fita tinha problema e partiu várias vezes. A platéia apupava, assobiava, batia nas carteiras. Paguei pra vê, quero meu dinheiro de volta eram algumas frases jogadas antes dos mais irritados se retirarem. Ironia do destino ou a arte imitando a vida, o filme tem uma cena de assalto a banco, na qual a personagem provoca uma explosão de bomba-relógio ao abrir o caixa forte.

 

Os irmãos Geraldo e Luiz Conrado eram os responsáveis por operar os projetores do cine Apolo 11, que ficavam no primeiro andar do auditório. Por ainda estar na sala de projetores, Luiz saiu ileso. O caçula Manuel Justino Conrado (Manuelzinho), que tinha servido ao Tiro de Guerra de Cajazeiras, era o porteiro. O soldado Didi fazia a segurança e ajudava às vezes na portaria. O menor Geraldo Galvão, para ganhar uns trocados, corria o auditório depois das sessões para recolher objetos e pertences deixados pelos espectadores. O soldado Altino Soares (Didi) recebia e os guardava para os proprietários.

 

No final do filme, um ficava para desligar a máquina e o outro as luzes do auditório. Eu desci para apagar as luzes laterais. Foi aí que veio o papouco (pipoco). Fui atingido ainda na escada , narra Geraldo Justino Conrado, aos 66 anos, mostrando as pernas deformadas pela fratura e pelos estilhaços. Hoje, vive tomando remédios para dores e para os nervos .

 

As vítimas foram levadas de imediato ao Hospital Regional de Cajazeiras para o socorro de urgência. Dois dias depois, seguiram para João Pessoa, internando-se no Hospital Edson Ramalho. Com o cérebro perfurado por uma lasca de madeira de uma das cadeiras, Manuelzinho permaneceu todo o tempo inconsciente e foi o primeiro a morrer, dois dias depois do atentado. Nove dias após o episódio, morre o soldado Didi. A bomba tinha um alto poder de destruição, a ponto de ter arrancado a grade da entrada do Cine-Teatro.

 

“Quando eu cheguei, Didi ainda estava vivo. Eu disse: Didi, e aí? Ele respondeu: Eh, tem jeito, não. As pernas (os restos) foram amputadas”, recorda Geraldo Galvão. A infecção generalizada levou o soldado à morte.

 

O jornal oficial do governo da Paraíba, A União, revela no dia 4 de julho, que a notícia do atentado só tinha chegado a João Pessoa na noite anterior, quando da passagem pelo Aeroporto Castro Pinto de um avião da Força Aérea Brasileiro que conduzia um coronel, um major e um capitão do Exército, componentes de uma comissão investigadora. No aeroporto, embarca o secretário de Segurança Pública, coronel Audízio Siebra. À tarde, havia seguido para Cajazeiras o superintendente da Polícia Federal na Paraíba, Sadoc Thales Reis.

 

Na edição de 5 de julho, três dias depois, o jornal O Norte de João Pessoa informa que as autoridades não tinham identificado ainda quem colocou a bomba, porém, acreditavam que se tratava de uma ação terrorista com ramificações no Estado e que a pessoa que levou o petardo para a cidade não agiu isoladamente. Essa interpretação demonstrava, assim, que os órgãos de investigação consideravam que as autorias intelectual e material foram de pessoas de fora da cidade.

 

O governador Ivan Bichara (Arena) visita a cidade no dia 7 de julho e, segundo A União, impressiona-se com os estragos da explosão. Bichara reúne-se também com Dom Zacarias Rolim de Moura, que havia retornado à cidade. Ao jornal O Norte, edição de 8 de julho, o bispo afirma: “Não tenho inimigos, se ideologicamente entre em divergência com outras pessoas, não vejo razão nenhuma para que isso justifique um atentado, pois sou apenas um discípulo de Deus”.

 

O historiador e professor da Universidade Federal de Campina Grande, Francisco Chagas Amaro, 58, natural de Cajazeiras, à época um radialista com 23 anos, revela que a censura do regime militar passou a tomar conta do noticiário. “Notícias na imprensa eram só as oficiais. O episódio da bomba ficou sob censura. Tudo corria sob sigilo. Ninguém se aventurou a comentar ou fazer juízo. Estabeleceu-se o silêncio. A imprensa não teve acesso ao inquérito”, destaca.

Reportagem de Ayrton Maciel no Jornal do Commércio

SOBRE Christiano Moura

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